Fernando Molica: Trilha sonora para os corações solitários

Na maior parte das músicas sobre o tema, Paulinho transpira mais resignação e menos desespero

Por O Dia

Rio - Neste Dia dos Namorados, um conselho para os desiludidos, os que tomaram chute no traseiro, aqueles cujos cotovelos fazem buracos em mesa de bar. A trilha sonora para hoje deve passar longe dos CDs em que Jamelão canta Lupicínio Rodrigues (estes deveriam ser vendidos apenas com receita médica) e de Chico Buarque.

Nosso maior compositor é impiedoso ao falar de separações e da permanência de amores desfeitos. Faca só lâmina, perfura o peito ao descrever o sangue que erra de veia, o pijama largado ao pé da cama, o adorar pelo avesso. Com ele não tem conversa, a tristeza é infinita, cheia de cicatrizes; o amor liga afobado, deixa confissões e confusões na secretária eletrônica. Não adianta disfarçar, mudar de calçada quando aparece uma flor: fica patente o sentimento de perda, a melancolia de um amor a ser deixado para amantes que, no futuro, dele desfrutarão. Sobra também um amor-contemplação, perdido num improvável tempo da delicadeza, “Onde não diremos nada;/ Nada aconteceu./Apenas seguirei/Como encantado ao lado teu.”

A esta altura você já deve estar certo de que, por hoje, é melhor deixar o Chico fora do ar. Sugiro então um mergulho em Paulinho da Viola. Mestre no diagnóstico de amores findos, do beijo que já não arde, ele, apesar da dureza das constatações, tem uma postura mais plácida, menos hemorrágica em relação ao que passou e consegue até transmitir alguma expectativa de felicidade. Em ‘Pra fugir da saudade’ (com Elton Medeiros), confessa que, num samba, desfaz o que lhe fora feito. Vale chorar e, depois, retirar “De todo amor o espinho/Profundamente deixado” (‘Coração imprudente’, com Capinam). Conforma-se até em saber da paixão irrealizável por um coração leviano, que nunca será de ninguém. Não quer viver enganado.

Aqui, ele recorre a Cartola e Bide e roga para que a malvada, ao ouvir os seus ais, volte ao lar pra viver em paz; ali, admite sofrimento e a dificuldade de ficar sem a companheira. Porém, na maior parte das músicas sobre o tema, Paulinho transpira mais resignação e menos desespero, tateia alguma esperança, fala, também com Elton Medeiros, de um coração que seja um lago tranquilo onde a dor não tenha razão. Ele não aponta saídas, mas, craque experiente, ajuda a acalmar o jogo, a botar a bola no chão. E, como ressalta em ‘Coisas do mundo, minha nêga’, não deixa de buscar a melhor forma de se viver.

Fernando Molica é jornalista e escritor | E-mail: fernando.molica@odianet.com.br

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