Leda Nagle: É só fazer a lista

Como é bom poder pisar na vaidade da gente e admitir que erramos em algum momento

Por O Dia

Rio - Não acho bom deixar um ano acabar e outro começar sem avaliar o que aconteceu de bom e o que foi ruim. Mas acho melhor ainda quando consigo parar para pensar no que poderia ter sido melhor, nas perdas e nos ganhos (e não estou falando de dinheiro) que tive no ano que se encerra. Até porque muitas vezes ele não se encerra. E se a gente deixar passar batido é como se os meses se sucedessem num ano gigante, e a gente fosse sempre a mesma pessoa, o que não é verdade.

Ou não deveria ser. Ou não poderia ser. E, nestas horas, uma coisa que me vem à cabeça é a letra de Oswaldo Montenegro de uma musica dele que eu adoro, que se chama “A Lista”. Minha vontade era de transcrevê-la inteira aqui, mas, para não parecer preguiça de escrever a coluna, vou escolher os trechos que acho mais fortes, tipo: “Faça uma lista dos sonhos que tinha, quantos você desistiu de sonhar? Quantos amores jurados pra sempre, quantos você conseguiu preservar?”. Ou ainda, noutro momento, quando Oswaldo escreve: “Quantas mentiras você condenava? Quantas você teve que cometer? Quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você?”.

Todo mundo muda com o tempo, com o passar dos anos, e acho saudável rever as impaciências do dia a dia, avaliar a importância desnecessária que a gente dá a fatos que não têm importância nenhuma. Como a gente se aborrece com bobagens, como a gente sonha ter coisas das quais a gente absolutamente não precisa, como a gente é bobo em alguns momentos e não percebe a grandeza da vida apegada a ideias de ontem e que não têm significado algum hoje? O querido Oswaldo pergunta, por exemplo: “Quantos amigos você jogou fora?”. E eu fico pensando nos amigos que partiram desta vida e naqueles que preferi deixar partir do meu coração, às vezes com dor, outras com alívio... Como é bom poder pisar na vaidade da gente e admitir que erramos em algum momento ou em vários, que fomos intolerantes aqui ou ali, mas que também melhoramos ou avançamos neste ou naquele quesito.

E volto ao jeito do Oswaldo de questionar: “Onde você ainda se reconhece? Na foto passada ou no espelho de agora?”. No começo da letra, ele propõe a questão mais dura de bancar, quando diz: “Faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás, quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?”. Como é bom ter certeza que mudar é possível. Pode ser para melhor. Ou pode ser inevitável.

E-mail: comcerteza@odia.com.br

Últimas de _legado_Opinião