Fernando Molica: A chuva de porco-espinho

Na boa, porco-espinho equilibrista, praticante de slackline, nem em desenho animado

Por O Dia

Rio - E tem gente que duvida da capacidade de o Brasil surpreender. Nossa realidade é imbatível, humilha qualquer ficção, faria picadinho do realismo mágico de Gabriel García Márquez. Nem os ditos populares escapam . O sujeito que criou a expressão “chovendo canivetes” jamais imaginou que, um dia, pudesse chover porco-espinho.

Lembremos: moradora da Gávea, Sandra Nabuco Rocha de Paula levou o cachorrinho pra passear e recebeu na cabeça uma espécie de versão MMA de acupuntura. Um porco-espinho, animal que achei só existir em desenhos animados, desabou sobre ela. Pior, o bichinho se desequilibrara ao caminhar sobre cabos de eletricidade.

Na boa, porco-espinho equilibrista, praticante de slackline, nem em desenho animado (imagino o dito cujo segurando, com suas patinhas dianteiras, aquela vara usada para garantir o equilíbrio). A Sandra ficou com uns 300 espetos na cabeça, um arranjo de dar inveja ao Cebolinha, que tem meia dúzia de fiapos enfiados no couro cabeludo. Se a moda pega, teremos que começar a usar guarda-chuvas blindados.

Mas o episódio nem é tão grave. O que é um reles porco-espinho bêbado e desequilibrado diante da governadora Roseana Sarney, que atribuiu à riqueza do Maranhão a fonte dos problemas de segurança de lá? A explicação só seria válida se ela estivesse se referindo à riqueza dos que transformaram o estado em capitania hereditária.

Os espinhos sequer fazem cócegas na consciência de um país em que a Justiça proíbe grupos de jovens de entrar em shoppings, em que alguns empresários continuam a achar que problema social se resolve com polícia. Prefiro atribuir o caso a um erro de pontaria do cara lá de cima, o Todo Poderoso. Vai que ele guardava a surpresa para o Renan Calheiros e sua recém-implantada cabeleira? Seria uma espécie de vingança dos Céus.

Por via das dúvidas, não pode ser descartada a hipótese de o incidente da Gávea ser um — mais um!— sinal do fim dos tempos. Em meio à possibilidade de um temporal de agulhas naturais, vale recorrer ao conselho de um amigo, ex-colega de redação, o Severino Albuquerque, mestre em administrar perdas e ganhos. Diante de uma crise inevitável, ele recorria a uma impublicável metáfora pluviométrica.

Devidamente adaptada, seria algo mais ou menos assim: na hora em que você notar que vai chover porco-espinho, aproveite os primeiros pingos e ponha a cabeça na direção de um filhotinho em queda. Depois, grite que seu cocuruto já está espetado. Assim, talvez seja possível evitar espinhos maiores.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br?

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