Editorial: Atos não podem se virar contra os trabalhadores

As manifestações de rua viraram uma poderosa forma de diálogo entre povo e governantes

Por O Dia

Rio - As manifestações de rua viraram uma poderosa forma de diálogo entre povo e governantes. São muito bem-vindas, seja como consolidação do processo democrático, seja como forma de acelerar demandas históricas às quais o Estado não foi capaz de atender. Há que se ter cuidado para que ferramenta tão preciosa não se banalize nem caia na antipatia popular. Ou, pior ainda, imponha sofrimento grande à classe trabalhadora, principalmente.

É o que salta aos olhos, no primeiro momento, com a convocação de manifestações no Centro em horários de deslocamento de casa para o trabalho e vice-versa. Se o caos no trânsito na região já impõe prejuízos e martírio inédito a motoristas e pedestres, por causa das obras do Porto, recomendável seria não economizar em sensibilidade.

Planeja-se ato contra a imobilidade urbana que acomete o Rio e contamina as principais artérias da Região Metropolitana. Mas travar corredores de tráfego em horários de circulação frenética não torna pior uma situação já insustentável? Provocar engarrafamentos em escala bíblica, como parece ser a proposta, não haverá de render mais aversões do que apoios?

É imperiosa a reflexão sobre a tese, muito questionável, de que toda manifestação, sejam lá quais forem suas causas, tenha que se impor pelo grito e enfrentamento. A pauta desses movimentos deve ter em conta também a receptividade da população e seu livre direito de circular. O desprezo a esse direito consagrado pode levar a constrangimentos e incidentes pessoais.

A cidade já sofre o bastante com trânsito estrangulado. Manifestar-se pacificamente é direito inquestionável no Estado Democrático. Que venham atos públicos, a democracia agradece. Mas impedir trabalhadores, em pleno rush, de chegar a seus destinos foge à razoabilidade. A população não merece.

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