Tensão na Mangueira deixa bairros vizinhos em alerta

Morte de ex-traficante contrasta com valorização da área após UPP e Copa do Mundo

Por O Dia

Rio - Os cinco disparos que mataram o ex-chefe do tráfico do Complexo da Mangueira Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, à luz do dia, na tarde de terça-feira, direcionaram os holofotes para a insegurança vivida pelos moradores da região. Eles, que há três anos associaram a paz na comunidade à implantação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local, hoje veem as principais linhas de investigação da Divisão de Homicídios (DH) para a execução de Tuchinha convergirem para a disputa de facções rivais por pontos de venda de drogas na comunidade.

Em paralelo, moradores de bairros do entorno, como São Cristóvão, Benfica e Caju — valorizados pelas UPPs e pelas obras dos grandes eventos — torcem por novos dias de paz. Acostumado às variações do mercado imobiliário, Ruben Vasconcelos, presidente da Patrimóvel, lamenta os conflitos nos arredores do conjunto de bairros que, de acordo com ele, ainda concentram alguns dos melhores relações custo-benefício de compra do Rio de Janeiro.

O novo Maracanã valorizou a região%2C assim como a UPP da Mangueira. Mas a comunidade está sendo visada%2C segundo a polícia%2C por facções que disputam a venda de drogasDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

“Há oito anos, as redondezas estavam entregues ao ostracismo e não havia qualquer empreendimento de habitação. Ser um bairro vizinho ao Maracanã, em tempos de Copa, e próximo à uma UPP acarretaram um ‘boom’ de construções e provocaram aumento de cerca de 200% no preço do metro quadrado dos imóveis, que hoje custam, aproximadamente, R$ 8 mil”, explica Ruben.

Ele não acredita em desvalorização nas cotações de venda da região, mas lamenta pelos recentes ocorridos. “O Rio passa por um processo de transição social. Mas em qual outro bairro o comprador pode estar próximo ao Centro, à Grande Tijuca, ter bons restaurantes e museus, pagando tão pouco?”, ressalta.

Moradora do bairro desde 1999, a professora Luíza Vieira diz ter visto as transformações do local desde então. Com a mesma intensidade que disse ter sentido medo nos últimos dias, ela olha com esperança para o futuro. “Pensei que não voltaria a temer uma caminhada na Quinta da Boa Vista, como aconteceu nesta semana, mas acredito que as coisas voltarão à normalidade”, opina ela, que confessa evitar passar pela Rua Visconde de Niterói à noite.

Na última semana, após a morte de Tuchinha, o comércio na via foi fechado em sinal de luto. Mais de 600 alunos de uma escola que não abriu as portas ficaram sem aula.

Jéssica Duarte, de 21 anos, mora em Benfica desde que nasceu e ressalta as opções de lazer do bairro. “Por mais que tenhamos problemas, atualmente, quando digo que moro por aqui, vejo pessoas fazendo a associação direta à Cadeg e à Feira de São Cristóvão, e não à guerra no tráfico. Mas é claro que nós ficamos com medo de dormir depois de ouvir tantas notícias negativas, ao longo do dia”, confessa.

O posicionamento geográfico que valoriza o metro quadrado da região é exatamente o que faz do conjunto de favelas alvo de disputa por traficantes de facções rivais. O complexo da Mangueira (que inclui morros como Tuiuti, Telégrafo e Mangueira) é tido como fundamental para a venda e distribuição de entorpecentes na Zona Norte, já que fica entre a Grande Tijuca e linha férrea. Cravada na Zona Norte, a região repleta de morros abriga as UPPs da Mangueira, Barreira do Vasco-Tuiuti, Arará-Mandela e Caju.

Somados, 1.702 homens realizam o policiamento ostensivo nas comunidades. A Mangueira foi a primeira da região a ser contemplada com a UPP, em novembro de 2013.

Rumores sobre guerra de facções ganham força

Os boatos de invasão da Mangueira por traficantes das facções Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP), que poderiam acontecer a qualquer instante, ganharam força nos últimos dias e assustaram moradores e até PMs, que se colocaram de prontidão seis ocasiões.

De acordo com policiais do 4º BPM (São Cristóvão), informações não confirmadas de moradores — e até dos Serviços de Inteligência das Polícias Civil e Militar —, indicaram comboios de bandidos armados no Largo do Pedregulho e no Buraco Quente, entre quarta-feira e ontem. O reforço foi colocado nas proximidades da Rua Visconde de Niterói, onde não se confirmou o boato. Foi o suficiente para que carros voltassem na contramão da via.

A onda de rumores que se espalha com a mesma velocidade nas redes sociais, contrasta com a peculiaridade do ‘tráfico familiar’, liderado pelos Testas Monteiro, a família de Tuchinha, entre os anos 80 e 2000, na Mangueira. A Divisão de Homicídios investiga a possibilidade de Tuchinha ter se aliado, nos últimos tempos a traficantes de facções rivais ao Comando Vermelho para reassumir o controle de vendas de drogas na comunidade.

No hall de hipóteses, existe a suspeita de aliança de Tuchinha com Celso Luis Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, um dos fundadores da facção Amigos dos Amigos (ADA) para que assumissem juntos o comércio de drogas local, que estava enfraquecido desde a implantação da UPP.

Porém, policiais afirmam que a hipótese de aliança com bandidos do Terceiro Comando Puro (TCP) também não está descartada. Especulações dão conta de que bandidos rivais já estariam baseados em comunidades próximas. Internautas divergem quanto ao atual comando da Mangueira. De unânime, apenas o clima de insegurança e medo. Ruas desertas e a presença de homens armados em partes mais altas do morro são descritas em postagens na internet. “Não sabemos a que ordens seguir”, escreveu um homem.

Assaltos na região subiram 56% este ano

Para o sociólogo Ignácio Cano, diretor do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, a cobiça de grupos criminosos por regiões onde o tráfico, apesar de ativo, encontra-se enfraquecido, como o Complexo da Mangueira,reflete uma tendência internacional.

“Tão importante quanto a venda em larga escala é estar bem posicionado para facilitar a distribuição. Modalidades como o ‘disque-drogas’, já combatido em algumas comunidades do Rio mostram que hoje o tráfico se sente sufocado e busca alternativas para faturar”, explica.

Apesar do discurso positivo, a criminalidade no entorno da Mangueira ainda é capaz de assustar a vizinhança. Números divulgados pelo Instituto de Segurança Pública apontam para um aumento de 56% no número de assaltos a transeuntes na região comandada pela 17ª DP (São Cristóvão), no comparativo entre outubro de 2011 (o último mês antes da implantação da UPP Mangueira) e julho deste ano. Foram 89 em 2014 contra 56 em 2011.

O aumento do número de assaltos a ônibus também assusta. No comparativo, houve um salto de 11 para 26. Um acréscimo de 136%.


Últimas de Rio De Janeiro