Menor apreendido sonhava ser judoca

Crime na Lagoa acontece no momento em que se discute a a redução da maioridade penal

Por O Dia

Menor%2C de 16 anos%2C tem 15 anotações na polícia. Foi identificado por uma testemunha do esfaqueamentoDaniel Carmona / Agência O Dia

Rio - Sem demonstrar surpresa nem esboçar emoções, o jovem X., de 16 anos, acordou, na manhã de ontem, com policiais na sua casa e foi apreendido. Ele é apontado pela Delegacia de Homicídios como um dos participantes do assalto que culminou na morte do cardiologista Jaime Gold, de 57 anos. O crime aconteceu terça-feira, na Lagoa. Morador de um condomínio do Minha Casa, Minha Vida em Manguinhos, o garoto já possuía 15 anotações criminais. Segundo a polícia, em pelo menos cinco usou faca ou tesoura para abordar as vítimas. O menor negou ter atacado Gold. A polícia ainda busca a identificação da outra pessoa que estaria com ele.

X. começou a praticar delitos aos 12 anos de idade. Em 2010, na Lagoa, roubou um pedestre. Desde essa passagem pela delegacia outras 14 vieram. Com crimes como roubo, furto, tráfico e desacato. Na delegacia, a mãe do adolescente, que trabalha com reciclagem, contou que em fevereiro o jovem deixou uma unidade socioeducativa, e que há quatro anos não frequenta mais a escola.

Até 2011, o sonho do menor apreendido ontem era ser lutador de judô. Ele se espelhava no filho de Gabriel Gomes, que o treinava no Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila, em Manguinhos: “Ele frequentou por mais de um ano, queria se federar, ser lutador profissional, mas o vi desrespeitando a mãe e não deixei. Mesmo assim, continuou treinando. Queria realmente seguir na luta”, disse Gabriel.

Gabriel lembra bem quando perdeu contato com o adolescente. “Tivemos que sair da escola para outro espaço e lá as aulas só poderiam ser aos fins de semana. Aí, ele parou de ir.” Os policiais chegaram ao menor três horas após assumir o caso. Baseados no depoimento de uma testemunha ocular e imagens de circuito interno de segurança, os agentes identificaram o adolescente. Ao ser apreendido, confessou que furtava bicicletas na Zona Sul e as levava para Manguinhos. No corredor de seu apartamento, onde estava com um irmão, a irmã e o cunhado, os policiais encontraram quatro facas e duas tesouras. Elas serão periciadas para saber se alguma delas foi utilizada no crime. Os agentes também acharam nove bicicletas em um compartimento fechado.

A delegada responsável pela investigação, Patrícia Aguiar, disse que o jovem havia se tornado uma referência: até pessoas de fora de Manguinhos compravam as bicicletas. “Ele sempre agiu na Lagoa, Ipanema e Leblon. Buscando sempre as mais sofisticadas”, disse. Segundo contou aos policiais, X. demorava de 35 a 40 minutos para voltar a Manguinhos.

Agentes da Delegacia de Homicídios apreenderam bicicletas que teriam sido roubadas por gangue Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

O diretor da Delegacia de Homicídios, delegado Rivaldo Barbosa, afirmou que a dupla não deu chance de defesa à vítima. “Vieram em uma bicicleta, emparelharam com o Jaime e o acertaram pelas costas. Quando ele caiu, o acertaram mais vezes e fugiram.”

O adolescente foi ouvido por policiais e um psicólogo da Delegacia de Homicídios, ao lado da mãe e da irmã. Ele será entregue ao Ministério Público e depois encaminhado para o Degase.

Caso reacende debate sobre maioridade

O crime na Lagoa acontece no momento em que se discute a a redução da maioridade penal. “É preciso maior investimento na juventude, em Educação, artes e esporte, e não tirar dois anos desses adolescentes”, defende Eduardo Alves, diretor da ONG Observatório de Favelas. Já o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) acredita que a redução da maioridade fará menores infratores não cometerem delitos, com medo da punição.

Parentes e amigos emocionados durante o cortejo de Jaime GoldFoto%3A Severino Silva / Agência O Dia

“Aquele que estupra, mata ou faz maldade se souber que pode cumprir alguns anos de cadeia vai pensar duas vezes antes de fazer”, diz o deputado. O posicionamento de Bolsonaro é o oposto ao da Anistia Internacional, segundo Renata Neder, assessora de Direitos Humanos da organização. “Os jovens estariam em convívio com adultos reincidentes. O estado não garantiria a segurança deles, como prega o Estatuto da Criança e do Adolescente”.

Para Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré, “o que precisamos é construir leis e medidas para que os adolescentes não cometessem os crimes.”

Um código para as ações

No início da noite, em reunião no Ministério Público Estadual (MP), foi decidida a criação de uma comissão com representantes da PM, Polícia Civil e MP para criar um código de conduta para a ação do policial militar, que não fira o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas também não limite a ação do agente.

Foi definido, também, que será necessária uma ação mais efetiva da prefeitura, através da Secretaria de Assistência Social.

O presidente do Tribunal de Justiça, Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho, disse ontem que “a sociedade não pode ficar refém de uma situação tão trágica”, se referindo aos crimes praticados por menores infratores. Ele propõe a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Medo continua a cercar a Lagoa

Embora o policiamento na Lagoa tenha sido reforçado ontem, frequentadores estão receosos quanto à segurança. “Daqui a um tempo, o crime vai ser esquecido, e a Lagoa voltará a ficar extremamente perigosa”, disse Raquel Lima, de 48 anos. Ela deixou um buquê de flores no local onde o médico Jaime Gold foi atacado. “Sempre corri e passeei por aqui pela manhã e à noite. Há três meses comecei a pedalar, mas, devido a notícias de assaltos, acabei desistindo de vir após 19h.”

A PM informou que destacou 48 policiais para o patrulhamento ostensivo. Ontem, PMs de bicicleta foram vistos circulando na ciclovia.

Cerca de 150 pessoas acompanharam o enterro do médico, ontem, no Cemitério Israelita do Caju. “Jaime era contra qualquer tipo de violência e achava que ela nunca iria atingi-lo. Ele, por exemplo, nunca quis aprender uma arte marcial”, contou o amigo Adelmo de Oliveira. “É uma perda muito grande, muito dolorosa”, disse Sara Uderman, tia de Jaime.

Reportagem de Athos Moura, Caio Barbosa, Eduardo Ferreira, Flávio Araújo, Marcello Victor, Paloma Savedra e Tássia Di Carvalho


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