Água em casa não é para todos

Com estiagem prolongada, diversos municípios enfrentam problemas de abastecimento

Por O Dia

Rio - A seca prolongada tem causado problemas de abastecimento de água em diversos municípios do estado. De Angra dos Reis e Paraty, na Costa Verde, a São João da Barra e Itaperuna, no Norte e Noroeste Fluminense. Em Angra, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) está fazendo rodízio de água. Nos bairros mais críticos — Japuíba, Belém, Ribeira, Bonfim, Camorim, Jacuecanga, Água Santa e Praia do Machado — vivem cerca de 40% da população. A seca reduziu as reservas de água do município, abastecido pelos rios Caputera, Jacuecanga, Banqueta e pela Barragem de Cabo Severino.

Para evitar um colapso no sistema, a Saae reforçou as inspeções nas redes e realiza manobras, alternando a distribuição em diferentes horários. Para piorar, alguns bairros ainda sofrem a ação de vândalos. Na quinta-feira, pela segunda vez este ano, a caixa da bomba principal que abastece a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Japuíba foi depredada. Vândalos quebraram as instalações, roubaram a bomba d’água, registro e tubulações, além de usarem o local como banheiro. O abastecimento da UPA foi prejudicado e atendimentos chegaram a ser suspensos.

Em São João da Barra%2C Rogério tem que usar uma escada para pegar água na casa da irmã que mora ao ladoDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Em Paraty, a prefeitura e a concessionária Águas de Paraty tentam garantir a distribuição com a interligação das duas redes de captação no bairro Jabaquara. Na zona rural, foram providenciados caminhões pipa. Tanto em Angra quanto em Paraty as prefeituras emitiram alertas, pedindo que a população economize água.

No Noroeste, onde o nível do Rio Muriaé atinge 1,18 metro, segundo a Defesa Civil de Laje do Muriaé — o menor já registrado —, os problemas já duram 60 dias em Boa Ventura, distrito de Itaperuna. Segundo moradores, a situação tende a piorar com a instalação de bombas por vizinhos, que diminui ainda mais a pressão da água que chega às torneiras.

O comerciante Pedro Luiz Machado, de 60 anos, diz que a distribuição irregular é um problema recorrente. “Sem água para molhar as verduras, eu perco parte da minha mercadoria”, disse. Amanda de Sá, 23, técnica em contabilidade, disse que o problema afeta a cidade há bastante tempo. “Minha família também está tendo que pegar água na casa do vizinho”, conta. A Cedae informou que os distritos de Itaperuna são abastecidos pela prefeitura.

Salinização: o drama que atinge moradores de São João da Barra

Em São João da Barra, onde o Paraíba do Sul deságua no oceano, o problema é agravado pela salinização, já que com o nível baixo do rio, a água do mar invade o sistema de captação. A situação é tão crítica que a prefeitura tentou dragar o rio, para aumentar a vazão e reduzir o problema, mas a obra foi barrada pelo Ministério Público Federal (MPF) esta semana.

Morador do Centro, o agente administrativo Rogério Teixeira, de 50 anos, relata seu drama: “Aqui tenho água dia sim, dia não. Às vezes tenho que pegar uma escada para subir na caixa d'água da minha irmã, que mora ao lado, e passar para a minha.” Segundo ele, o problema acontece há três meses e tende a piorar no verão, com a chegada de turistas.

Já o farmacêutico Pedro Martins, 28, reclama do fenômeno da língua salina:“A água chega salgada na torneira. Mesmo com filtro não adianta. Para fazer café, por exemplo, só com água mineral.”
Postos de saúde e escolas estão sendo abastecidos por carros-pipa. Há 22 anos trabalhando no Ciep Gladys Teixeira, o merendeiro Aílton Resende, 57, diz que a medida não é suficiente.

“Desde que começou essa estiagem, a Cedae tranca o fornecimento (para evitar que a água salgada chegue às torneiras) e falta água aqui. Para encher a cisterna são necessários sete caminhões, mas geralmente vêm quatro”, contou.

O secretário de Meio Ambiente Marcos Antônio Sá diz que o objetivo agora é abrir novos poços artesianos — atualmente, 70% do município têm poços. “Estamos querendo abrir mais alguns, mas não para ficarem para sempre, e sim por esse período mais crítico”, explicou. Segundo ele, a prefeitura já disponibiliza carros-pipa e colocou caixas d'água de 5 a 10 mil litros nas áreas com maior problema.

Reportagem de Eduardo Ferreira e Vinicius Amparo

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