Roberto Muylaert: Falcatrua atrás de falcatrua

E como num jogo de futebol, todo mundo tem como certo o fato de haver três ministros que parecem não querer apressar em nada o andamento da miríade de processos

Por O Dia

Rio - Nunca estivemos tão bem informados como agora sobre a extensão das roubalheiras por quem está ou esteve nos governos. Coloco no plural, porque as coisas não acontecem só na esfera federal.

No sábado, por exemplo, estive numa mesa de dez pessoas, em que um dos presentes resolveu fazer um mea culpa, e ao mesmo tempo uma queixa contra o bloqueio de sua conta, “que seria a minha garantia na velhice”, coisa de uns R$ 10 milhões que recebera de “comissões”, como confessou sem ninguém o inquirir, exibindo a humildade de seus valores, frente aos monumentais desvios da esfera federal.

A coisa dele era com o governo de São Paulo, cujas figuras, atuais ou passadas, o irritam quando se mostram indignados com a corrupção federal, tendo eles participado do butim local.

Ninguém se surpreende mais com essas “horas da verdade” espontâneas, ou induzidas pelos procuradores da Justiça. Existe uma saturação de acusações e todo mundo se pergunta o porquê de não entrarmos na fase prática das condenações, com tanta gente presa sem ser julgada.

Aí entra o fator dos privilégios para parlamentares e autoridades em geral, que é o tal “foro privilegiado”, equivalente à indulgência plenária da Igreja Católica, aquele passaporte para que o fiel vá para o céu, mesmo que morra em “pecado mortal”.

Ou seja, o politico pode pecar à vontade contra a honestidade, mas só poderá ser julgado pelo Supremo. Este, claro, não tem como se livrar de uma multidão de processos antes que prescrevam. Cármen Lúcia, a presidente do STF, mencionou uma espécie de mutirão para correr com esses processos, enquanto a Câmara Federal pretende acabar com o foro privilegiado, cortando também na própria carne.

Enquanto isso, a gente continua sendo informada de falcatrua atrás de falcatrua, seja pelos canais competentes, ou num despretensioso almoço entre conhecidos.

E como num jogo de futebol, todo mundo tem como certo o fato de haver três ministros que parecem não querer apressar em nada o andamento da miríade de processos. A saber, os senhores Ricardo Lewandovski, Dias Toffoli, e Gilmar Mendes, que a torcida pela justiça reconhece como torcedores do time adversário.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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