'Quando o Estado atua integrado, ele pode ir onde quiser', diz Roberto Sá

Primeira grande ação das Forças Armadas com policiais dura 14 horas. Ao todo 24 pessoas presas

Por O Dia

Rio - Atribuindo aos ataques a policiais, às investigações em andamento e aos mandados de prisões já expedidos, a secretaria estadual de Segurança coordenou neste sábado a segunda fase da operação integrada com o governo federal. A operação Onerat (cargas, em latim) começou, por volta de 3h30, com o cerco a redutos de assaltantes de cargas — Complexos do Lins, Camarista Méier, Chapadão, Pedreira, e no Morro São João, no Engenho Novo. Moradores relataram tiroteios de madrugada.

Desde a madrugada%2C agentes das Forças Armadas%2C com apoio de veículos blindados%2C atuaram nos acessos às comunidades realizando blitzesEstefan Radovicz / Agência O Dia

Participaram um total de 4.931 agentes de segurança, entre militares das Forças Armadas; da Força Nacional; e das polícias Civil, Federal, Militar e Rodoviária Federal. O número é quase o dobro do contingente utilizado para a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010, que contou com 2.700 homens.

No entanto, a operação de sábado teve um perfil diferente e foi encerrada às 18h. Segundo o ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, Sérgio Etchegoyen, o objetivo da ação não é ocupar as favelas. “O que buscamos são soluções perenes, duradouras. Elas não virão de asfixiar a comunidade com presença permanente de tropas federais que, ao saírem, permanecem as condições para que o crime continue”, afirmou.

Os militares revistaram pessoas e carros%2C com a ajuda de cães%2C durante o cerco às comunidades do Complexo do Lins e Camarista MéierEstefan Radovicz / Agência O Dia

ACIDENTE MATA PM

Ao todo, 18 pessoas foram presas por mandados de prisão e cinco em flagrante. Um foragido da Justiça foi capturado e dois adolescentes apreendidos. Segundo a Secretaria de Segurança, dois homens morreram em confronto com os policiais.

Um policial militar também morreu durante a operação, mas em um acidente de trânsito envolvendo a viatura em que ele estava e um ônibus. O secretário de segurança, Roberto Sá, ressaltou a união das forças no combate à criminalidade. “Hoje nós mostramos que quando o Estado atua integrado, ele pode ir onde quiser”, afirmou. Ele também fez menção aos ataques a PMs como justificativa. Esse ano, 94 PMs foram vítimas de mortes violentas. E, no dia 31 de julho, uma viatura foi incendiada justamente no Complexo do Lins.

Na operação, foram apreendidos 21 carros, uma moto, três pistolas, duas granadas, além de drogas. Mas nenhum fuzil. Os agentes recuperaram cargas roubadas, incluindo parte do conteúdo do caminhão dos Correios, assaltado na sexta.

Para o vice-presidente do sindicato das transportadoras, Donizete Pereira, a estratégia para combater o roubo de cargas, um dos principais objetivos da operação, tem que mudar. “Só vai diminuir quando colocarmos viaturas nos acessos às comunidades do Chapadão e da Pedreira e um policiamento mais forte na Brasil. Está faltando infelizmente gestão. Não adianta fazer operação desse tipo”, opinou Pereira.

Cerco ao tráfico e aos roubos de cargasAgência O Dia

População desconfia da eficácia

Nas localidades onde a operação aconteceu, foram feitos cercos e pedestres, veículos e caminhões de carga eram abordados e revistados. Apesar de todo o aparato, moradores do bairro não acreditam em uma melhoria na segurança para breve. “Resta saber até quando isso vai durar, porque quando eles vão embora nós ficamos, e daí volta a verdadeira realidade daqui, que é assalto a toda hora”, disse uma moradora do bairro que não quis se identificar.

Um comerciante contou ainda, que os crimes se repetem. “De janeiro para cá, o jornaleiro e a loteria daqui da rua (Lins de Vasconcelos) já foram assaltados três vezes”. No Engenho Novo, moradores relatam uma alta quantidade assaltos praticados por grupos de motos ou carros, que roubam de pedestres a caminhões. “No ponto de ônibus, vejo pessoas sendo assaltadas quase que diariamente. Hoje, estou andando com o meu celular na mão só porque o Exército está aqui. Hoje eu posso”, declarou sorrindo.

A autoestrada Grajaú-Jacarepaguá ficou fechada desde às 4h50 da manhã, sendo reaberta às 18h. O trânsito na região e no entorno ficou engarrafado e houve queixas. “Comprei uma casa na Cachoeira Grande (comunidade acessada pela estrada) e estou com o caminhão de mudança parado aqui desde às 10h. Só me resta aguardar, pois não tenho para onde ir”, desabafou uma mulher.

Um grupo, também de moradores da comunidade, foi doar sangue e voltava para casa na van do Hemorio. “Uma das nossas colegas passou mal com esta situação e acabou tendo de retornar ao hospital”, contou um jovem.

1.300 PARAQUEDISTAS CERCAM A MATA PARA EVITAR FUGA DE BANDIDOS

Principal procurado, Da Russa, chega a morar meses escondido no mato

Meia hora antes do início da operação, 1.300 paraquedistas entraram a pé na mata que margeia o Complexo do Lins até o morro da Covanca, em Jacarepaguá. O efetivo representa mais de um terço do contingente das Forças Armadas empregadas na operação e tem treinamento de operações em selva.

O objetivo era fazer um cerco para evitar a fuga para a região e encontrar traficantes acostumados com sobrevivência nesse habitat — como o chefe do tráfico dessas comunidades, Sergio Luiz da Silva Júnior, o da Russa, que não foi encontrado. Uma recompensa de R$ 30 mil é oferecida por informações que levem à sua prisão.
De acordo com investigação da Polícia Federal, Da Russa possui até esconderijos subterrâneos na mata e é capaz de ficar meses escondido nela.

É o que acredita que tenha ocorrido em maio do ano passado, quando o traficante passou a ser procurado por possível participação no estupro coletivo de uma adolescente na favela Barão, na Praça Seca. Ele chegou a ser denunciado pelo crime, mas a Justiça rejeitou a denúncia.

Além de servir como esconderijo, a mata é utilizada para estocar drogas. O DIA apurou que a inteligência da Secretaria de Segurança acredita que a mata já foi usada para guardar as armas, mas os bandidos mudaram a tática. Agora, cada traficante é responsável por portar o fuzil consigo.

O fato deles se esconderem no interior da mata justificaria a ausência de fuzis nas apreensões. Apesar disso, a polícia disse que não foi detectada vazamento de informação.

Outro procurado pela polícia ontem foi o traficante Douglas de Melo, o Miguelinho, integrante do tráfico do Complexo do Lins. Ele é acusado de envolvimento na morte da dentista Priscila Nicolau, em novembro de 2016, após uma tentativa frustrada de invasão do morro do Banco, pela mata. Na fuga, ele e outros 30 traficantes saíram da vegetação e cruzaram com o carro da dentista disparando 17 tiros de fuzil. 

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