O problema da saúde pública

Por Luiz Otávio Nazar Diretor do Hospital Geral do Ingá

A saúde é direito de todos e dever do Estado. Precisa ser garantida através de políticas sociais e econômicas que reduzam riscos de doença e de outros agravos. E mediante o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Isso é o que diz o Artigo 196 da Constituição Federal de 1988. No entanto, alguns estados, especialmente o Rio de Janeiro, parecem desconhecer completamente esse item e ignorá-lo. Quando entrei na Faculdade de Medicina em 1998, há mais de 20 anos, a prestação da assistência e serviços de saúde pelo estado aos seus cidadãos já era precária. E os hospitais estaduais, completamente desabastecidos. Sem recursos humanos em todas as áreas (enfermeiros, médicos de todas as especialidades, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas), sem o maquinário tecnológico, como tomografia computadorizada (é inadmissível que em pleno século 21 um hospital público não disponha de um tomógrafo), sem leitos de terapia intensiva, sem remédios e insumos básicos.

Mas, naquela época, a população apresentava um sentimento de fé de que as coisas iriam melhorar. Afinal, não podemos ser pessimistas e achar que as coisas só podem piorar.

Daquele tempo para cá, diversos governadores entraram e saíram do Palácio Guanabara. Fizeram todas as promessas possíveis e imagináveis. Diziam que a saúde em geral e o tratamento nos hospitais iriam melhorar .

Lamentavelmente, nossa realidade, passados todos esses anos, piorou e parece um filme de terror. Um pesadelo.

A situação é de calamidade pública, sem qualquer possibilidade de melhora, nem no médio ou longo prazos. A população encontra-se abandonada pelo poder e pelas autoridades.

Pacientes oncológicos que fazem quimioterapia antes de operar para a retirada de um órgão acometido pelo câncer não conseguem fazer a cirurgia que deveria acontecer imediatamente após o término da químio. O tratamento fica paralisado e demora muitos meses. Isso também acontece com a radioterapia. O resultado dessa combinação catastrófica se reflete na progressão da doença e na ocorrência de metástases.

Na quase totalidade dos hospitais estaduais podemos encontrar 30 pacientes internados em uma área destinada a apenas 15.

Sem médicos de todas as especialidades clínicas e cirurgiões, remédios e materiais cirúrgicos, são suspensos milhares de procedimentos cirúrgicos, e aparece a famosa fila de espera, que ultrapassa 12 meses.

No Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, por exemplo, portadores de câncer da próstata em progressão deixam de receber, por falta e de medicamento, importante hormônio determinante para o controle da progressão da doença, o Zoladex. Pacientes transplantados de rim na mesma unidade hospitalar e que precisam ser tratados em longo prazo com medicação imunossupressora do dia para a noite descobrem que a referida medicação deixou de existir nos centros de distribuição do estado e acabam perdendo o rim transplantado.

A condenação vem sempre em cima de quem mais necessita de ajuda, a população carente. Carente de atenção, saúde, segurança pública, educação, e, no fim de tudo, de uma política que seja voltada para os interesses sociais.

Até quando seremos condenados a essa sentença mortal?

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