Estradas da discórdia

Estudo da CNT aponta razões para a má qualidade do asfalto nas rodovias brasileiras. Governo, no entanto, cita avanços de construção e manutenção

Por O Dia

Rio - É difícil encontrar algum brasileiro que elogie o estado do asfalto das ruas e estradas do país. Basta trafegar um pouco com um veículo para perceber a decadência do nosso pavimento, gritante aos olhos e que prejudica a durabilidade dos veículos. Parte desse grave problema foi analisado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), que divulgou nesta semana o estudo 'Por que os pavimentos das rodovias do Brasil não duram?', apontando razões para a falta de qualidade da infraestrutura viária nas rodovias.

Suspensão dos automóveis sofre prejuízos em decorrência dos buracos nas estradasDivulgação

De acordo com a confederação, mais da metade das rodovias pavimentadas no Brasil apresenta buracos, ondulações, fissuras, trincas e outros problemas. Elas são constituídas de asfalto que deveria durar entre oito e 12 anos. Mas, na prática, os problemas estruturais aparecem bem antes. Em alguns casos, em apenas sete meses após a conclusão da rodovia.

Uma equipe técnica da CNT analisou, nos últimos 13 anos, o estado de conservação dos pavimentos nas rodovias brasileiras, quais métodos e normas são empregados na construção delas, assim como os modelos de outros países, auditorias de órgãos de controle. De acordo com o estudo, que ainda coletou a opinião de especialistas do setor, o Brasil utiliza métodos ultrapassados para planejar as obras. Falha na execução, gerenciamento, fiscalização e manutenção das vias, além de investir aquém do necessário. O diretor executivo da entidade, Bruno Batista, comenta o objetivo do trabalho: "Nosso estudo parte de uma evidência prática. Queremos identificar os pontos e propor soluções para a questão de rodovias. A nossa norma de dimensionamento do pavimento é de 1960, regra que já foi descontinuada por países desenvolvidos".

Remendos aplicados no pavimento das estradas brasileiras atestam deficiências de manutençãoDivulgação

A defasagem dos projetos brasileiros para rodovias é de cerca de 40 anos em relação a países como Estados Unidos, Japão e Portugal. Este último, por exemplo, usa três zonas para calcular o impacto das variações climáticas sobre técnicas e materiais empregados na construção das pistas. No Brasil, não é feita essa diferenciação, importante para dar mais precisão ao projeto. "O processo construtivo de rodovias no Brasil precisa evoluir. Há técnicas e materiais existentes em outros países que ainda não incorporamos. Parece que aqui só as rodovias concedidas funcionam por meio de modelos eficientes de gestão da construção e manutenção", ressalta Batista.

Segundo a CNT, também falta fiscalização. Para a entidade, muitas obras são entregues fora dos padrões mínimos de qualidade, exigindo novos gastos para correção de defeitos. Com poucas balanças, os caminhões trafegam com sobrepeso, cujo impacto reduz a vida útil da via. O recurso para manutenção também é escasso. Estima-se que quase 30% das rodovias federais sequer têm contrato de manutenção. O diretor do órgão comenta: "A fiscalização também é deficiente, desde o processo de construção, que deveria ser eficaz para garantir que as rodovias tenham a durabilidade esperada. O controle deve continuar após a via em operação, a fim de evitar desgastes irregulares".

Exemplo de asfalto que sofreu com o efeito de 'escorregamento'Divulgação


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