Ex-tesoureiro do PT diz à PF que madrinha da bateria era 'cabo eleitoral'

Ela receberia 'mensalinho' do partido. Operação policial investiga fraude em licitação de quase R$ 1 bilhão

Por O Dia

Rio - O ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira, preso na Operação Abismo, declarou à Polícia Federal nesta terça-feira que não recebeu valores ilícitos das obras do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes). Ele disse que repassou dinheiro à madrinha da bateria da Escola de Samba Estado Maior da Restinga, em Porto Alegre, porque ela e outros integrantes da agremiação trabalharam como seus cabos eleitorais em 2010.

Madrinha de bateria Viviane Rodrigues recebia 'mensalinho' do PTReprodução Facebook

Paulo Ferreira foi preso há duas semanas, alvo de outra missão da PF, a Operação Custo Brasil - que investiga suposto desvio, entre 2010 e 2015, de R$ 100 milhões de empréstimos consignados no âmbito do Ministério do Planejamento, gestão Paulo Bernardo, também investigado no caso.

O depoimento do ex-tesoureiro foi tomado pela PF no inquérito da Operação Abismo, deflagrada nesta segunda-feira. A ação - que investiga fraude na licitação de quase R$ 1 bilhão da construção do Cenpes, em 2007 - é a 31.ª fase da Lava Jato. Paulo Ferreira é um dos investigados.

Um delator da Abismo, o advogado Alexandre Romano, conhecido como Chambinho, entregou à Procuradoria da República recibos de depósitos, a pedido do ex-tesoureiro do PT, para Viviane Rodrigues. Entre 2010 e 2012, madrinha da bateria teria recebido R$ 61,7 mil em 18 parcelas.

Os investigadores suspeitam que Viviane recebeu um "mensalinho" do ex-tesoureiro do PT com dinheiro de propina da fraude na licitação do Centro de Pesquisas da Petrobras. A Operação Abismo contabiliza propina global de R$ 39 milhões no negócio.

"Os documentos apresentados por Alexandre Romano comprovam a realização de diversos depósitos a Viviane da Silva Rodrigues, que, segundo o colaborador, seria amiga de Paulo Ferreira e seu contato com blocos carnavalescos", diz a Procuradoria da República.

Em seu depoimento à PF nesta terça, Paulo Ferreira disse que foi deputado federal e depois se candidatou à reeleição e que, na campanha, "algumas empresas se dispuseram a colaborar".

Segundo ele, Chambinho "se aproximou" dele e da direção do PT. O ex-tesoureiro descreve o delator como "um sujeito muito cativante, me fez padrinho de casamento dele".

Ferreira contou que Chambinho lhe disse que iria ajuda-lo na campanha. "Tenho uma grande experiência em finanças, me dá o nome de quem quer colaborar com você que eu cuido", teria dito o advogado, segundo o ex-tesoureiro.

"Passei o nome de umas quatro empresas, mas jamais poderia imaginar que alguma delas tivesse algo com a Petrobras ou na obra civil do Cenpes", afirmou Ferreira. Segundo ele, essas empresas "fizeram algumas contribuições".

Ao ser questionado sobre os repasses à madrinha da bateria da Estado Maior da Restinga, Paulo Ferreira alegou ter feito pagamentos "a fornecedores" e a "cabos eleitorais". Segundo ele, a escola de samba apoiou sua candidatura. A PF quis saber sobre a sequência de depósitos em favor de Viviane. "Eram todos cabos eleitorais", afirmou.

Esses cabos eleitorais, segundo Ferreira, faziam serviços de colocação de faixas, cavaletes e distribuição de santinhos. O maior valor que Chambinho recebeu dos contribuintes da campanha de Paulo Ferreira nunca foi superior a R$ 30 mil. A seus fornecedores, o ex-tesoureiro disse que repassava, em média, R$ 3 mil.


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