Charles Gavin ainda é reconhecido como baterista do Titãs

Músico saiu da banda em 2010. 'Tem gente que me pergunta na rua quando é o próximo show! Acho que ninguém nem sabe que eu saí da banda', brinca

Por O Dia

Charles Gavin ainda é reconhecido como baterista do TitãsDivulgação

Rio - Acredite: mesmo fora dos Titãs desde 2010, Charles Gavin ainda é reconhecido por muitos como baterista do grupo. “Tem gente que me pergunta na rua quando é o próximo show! Acho que ninguém nem sabe que eu saí da banda”, brinca o músico, que deu lugar a Mario Fabre nas baquetas. Para os fãs de música brasileira e seguidores atentos de seu trabalho, ele é o responsável por milhares de reedições de clássicos da MPB em CD e é o apresentador de ‘O Som do Vinil’, cuja décima temporada estreia sexta no Canal Brasil, revelando histórias por trás de discos conhecidos. E mostrando seu lado de entrevistador.

“Sempre fui fã de documentários, talk-shows, via tudo. Fiz faculdade de Administração de Empresas antes dos Titãs mas eu era amigo da turma de História, meu negócio era Humanas”, lembra o músico, à vontade na frente das câmeras (diz se inspirar no estilo objetivo do jornalista Geneton Moraes Neto), mas bastante crítico consigo mesmo. “Eu olho hoje os episódios da primeira temporada e penso: ‘Como é que deixaram isso ir ao ar?’”, brinca. “Aprendi fazendo. Desde o começo ficou claro o respeito e a postura de curiosidade que temos por aquilo. O público acaba comprendendo isso. Mas adoraria perder parte do meu sotaque paulistano e ter uma maneira mais natural de falar”, conta o morador do Leblon.

A nova temporada abre com um disco recente que teve edição em CD, formato digital e vinil, ‘Delírio’, lançado pela cantora Roberta Sá. Mas vem mais aí: Charles Gavin está especialmente animado com Edu Lobo falando sobre ‘Edu & Tom’, dividido em 1981 por ele e Tom Jobim, e 'À Procura da Batida Perfeita', segundo disco solo de Marcelo D2 (2003). “Ambos falaram de épocas diferentes do mercado. O disco do Edu foi o álbum de encerramento de contrato dele com a PolyGram (hoje Universal) e havia uma regra da gravadora de que o disco deveria ter participações de cantores em todas as músicas. O Tom Jobim foi lá participar de uma música e pediu para gravar outra, depois outra... O Aloysio de Oliveira (produtor) ligou para a chefia e pediu para o Tom fazer o disco todo. O lado artístico passou por cima do lado mercadológico nesse caso. E quem seria o maluco que iria barrar um disco desses?”, recorda. O mais novato D2 já pegou uma fase complexa: se o artista não se segurasse, o fator comercial sobressaía. “O D2 deu um depoimento muito verdadeiro sobre isso. Me lembrou o papo com a Marisa Monte há dois anos. Eu mandaria esses vídeos para universidades, para serem exibidos em cursos sobre gestão. A Marisa passou por várias fases da indústria fonográfica e tem total controle da carreira dela. É uma lição”.

De vendavais no mercado de música, Gavin entende. Em seus últimos anos nos Titãs, passou por mudanças de gravadora, pelo apequenamento do rock no primeiro time da MPB, pelo quase desmanche na indústria de CDs. “Minha insegurança quando saí da banda foi enorme. Abri mão de uma segurança financeira que eu tinha e hoje preciso me desdobrar”, diz, fazendo um trocadilho com a letra do hit de seu ex-grupo, ‘Não Vou Me Adaptar’. “Na letra tem aquele ‘eu não tenho mais a cara que eu tinha’. Eu não tenho mais a grana que eu tinha. Preciso estar sempre fazendo coisas”, brinca. Além do programa, Gavin produz há dois anos uma série para o Canal Brasil sobre a turnê do disco que uniu Marcos Valle à jazzista americana Stacey Kent (com os nomes de ambos no título), e que irá virar DVD este ano. Um especial de dez anos do ‘Som do Vinil’ também está em pauta. E da década passada para cá ele tem aberto sua agenda para palestras sobre MPB.

Nos anos 90 como baterista dos Titãs (o segundo%2C da esquerda) com Herbert Vianna e o produtor Jack EndinoDivulgação

O fato de ter filhas pequenas na época em que deixou a banda (“hoje elas têm 12 e 13 anos respectivamente”) e querer mais contato com a família pesou na decisão de Charles. “Eu poderia ter me tornado uma pessoa infeliz ou em depressão. Via colegas de banda falando ‘Pô, meus filhos já entraram na universidade, ja têm filhos e nem vi’. Isso tem lá seu romantismo, essa coisa da estrada, de passar dia das mães, dos pais, viajando. Eu me sentia feliz de ganhar dinheiro tocando bateria, via amigos da época de faculdade ralando de 8h às 18h... Mas queria acompanhar o crescimento das meninas. Eu sabia que não ia ter mais uma banda tão grande quanto Titãs. Tem um só The Who, um só Led Zeppelin, uma só Legião Urbana. Titãs é o mesmo”, diz o músico, que após os Titãs tocou bateria apenas no Panamericana, grupo montado com Toni Platão, Dado Villa-Lobos e Dé Palmeira para tocar sucessos do rock sul-americano. “Mas até o fato de me perguntarem na rua quando vai ter show dos Titãs indica que a ruptura foi suave. Eu não saí, me desliguei. Você nunca deixa de ser um titã”.

Últimas de Diversão