'Se ganhar, a gente vai a pé até o fim do mundo', afirma José Roberto Guimarães

Treinador revela ansiedade pela disputa da Olimpíada no Rio em agosto e fala um pouco sobre a sua vida pessoal

Por O Dia

Rio - Fã de livros sobre o universo feminino e eclético quando o assunto é música, José Roberto Guimarães não tem conseguido foco para ler ou ouvir um som. Sua concentração está voltada para a preparação da Seleção feminina de vôlei em busca do tricampeonato olímpico no Rio, em agosto. Se o seu quarto ouro da carreira vier, ele pensa em percorrer o Caminho de Santiago de Compostela pela terceira vez. O que não passa mesmo pela sua cabeça é se aposentar: “Amo essa vida.

José Roberto Guimarães revela ansiedade para que comecem logo os Jogos OlímpicosJoão Laet / Agência O Dia

Confira a entrevista:

ODIA: Você fala da chance de ganhar o ouro no Rio como algo muito especial. Você visualiza a conquista?

Zé Roberto: É uma coisa em que eu não penso. O que eu sinto é que, quem ganhar um ouro em casa, qualquer brasileiro, qualquer modalidade, vai ser a glória. Mas eu não visualizo. As coisas precisam acontecer. Temos que fazer por onde e tentar chegar em mais uma final. O que eu penso é no time, na melhoria que tem que ter, nas situações que nós estamos vivenciando, no treino, no que precisa ser melhorado. A minha cabeça fica girando em torno do time, em torno do adversário. Esse momento tem que ser agarrado de uma forma muito forte. Tento passar para elas a importância. Deixar um pouco a família de lado, as coisas de que mais gosta para focar neste pouco tempo que falta para começar os Jogos.

Do que você abre mão?

De tudo. Eu abri mão de tudo que você possa imaginar. Das coisas que eu mais gosto eu já abri mão, nem penso mais. É um estado de espírito. Se eu puder passar essa minha energia para elas, eu vou tentar. Eu vou lutar o tempo inteiro para que a gente tenha um espírito forte, para que a gente não deixe acontecer de qualquer maneira, para que tenha um foco muito importante em tudo o que está se passando em nossa volta.

E a promessa de fazer o Caminho de Santiago de Compostela?

A Sheilla outro dia me perguntou e disse que, se a gente ganhasse esse ouro, ela gostaria de fazer e eu disse que estava dentro. Mas primeiro a gente tem que ganhar. Eu fiz duas vezes. Na primeira, eu fiz 800km e, na segunda, 150km, com a Alcione (sua mulher). Se ganhar, a gente vai a pé até o fim do mundo. Isso não é o problema. Tudo vale a pena. O difícil é chegar lá, como o Caminho de Santiago é difícil também. Os Estados Unidos estão ávidos para ganhar uma medalha de ouro, porque já perderam duas finais consecutivas. A fome que essas americanas estão, os times que estão se preparando há alguns anos... Tudo isso a gente vai enfrentar. E, se nós não estivermos tão fortes psicológica e tecnicamente como eles, a gente não vai chegar.

De onde tira energia para seguir a cada ciclo?

Eu amo essa vida. Eu fico contando os dias para treinar, para viajar, para estar junto com meu time, para jogar. É uma coisa muito forte. Eu entro na quadra e me transformo. Eu não quero perder. Eu perdi muito quando o vôlei ainda estava caminhando. Era uma luta eterna para ganhar de algum time. Não posso me esquecer das dificuldades que a gente passou. Isso você traz na sua história.

Você vai permanecer na seleção brasileira?

Eu não sei. O meu futuro depende de resultado. Se o resultado for bom, tudo bom em permanecer. Se não for bom, muda-se. Independentemente de planejamento futuro, a gente tem que fazer o melhor que a gente possa.

Você pensa em parar?

Minha vida toda foi fazendo isso. Quando você pensa em se aposentar, você morre.

Você viu o que aconteceu com o Muricy Ramalho. Você se cuida?

Muito, treino bastante. Eu faço esporte quase todo o dia. Não gosto de entrar numa sala de musculação, mas gosto de jogar tênis e me exercitar. Preciso correr atrás de bola.

É um bom tenista?

Eu não sou cabeça de bagre, mas não sou um bom tenista.

Você nunca vê os outros esportes nos Jogos?

Eu não consigo me concentrar em outra coisa. Se eu estiver saindo de onde estou, não vou fazer a coisa intensa como tenho que fazer. Se eu for espairecer, assistir a um jogo de tênis ou ver uma prova de hipismo, vou estar fora do que preciso estar. É uma coisa minha. Quando me entrego para as coisas de alma corpo e coração, tudo acontece de outra maneira.

Dirigir clube está nos seus planos?

No futuro, penso. É possível.

Sempre no feminino?

Já tive propostas de masculino e de seleções masculinas. Mas eu não quero, acho que não é o meu naipe. Eu tentei me especializar no naipe feminino, tentei aprender sobre as mulheres e não me vejo mais dirigindo time masculino.

Você espera manifestações nos Jogos em função da situação política?

Espero que não, que as coisas se resolvam aos poucos, que a economia vá retomando seu rumo, que as pessoas que fizeram coisas erradas paguem pelo que fizeram e que o Brasil continue na sua normalidade e no crescimento. Vamos tocar a nossa vida, vamos fazer o que cabe a nós neste momento, que é representar da melhor maneira o nosso país. As pessoas que estão tocando essas outras coisas estão aptas a fazer isso.

Você fala dos cortes como um momento doloroso. Alguns marcaram mais?

Todos. É difícil e muitas vezes eu me pergunto até que ponto a gente tem esse poder, de cortar e cercear o sonho de alguém. Não gosto de fazer porque eu me sinto mal.

Está lendo algum livro?

Eu estou com dois (Mulheres em Ebulição e 6/0, Dicas do Fino, do ex-tenista Fernando Meligeni). Mas o grande problema é que eu entro no quarto, pego um vídeo de um time e vou estudar. Aí vou saber notícias dos times, como estão treinando. Não estou conseguindo foco nem para ouvir música. Neste período a gente tem que viver muito intensamente isso.

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