Concessão de crédito cai 4% em julho

Redução foi puxada pelo financiamento a empresas, principalmente com recursos direcionados. Em agosto, o Banco Central diz que há sinais de melhora, e mantém previsão de alta de 12% para 2014

Por O Dia

São Paulo - O saldo dos empréstimos do sistema financeiro nacional, considerando pessoas físicas e jurídicas, em modalidades com recursos livres e direcionados, atingiu R$ 2,835 trilhões em julho, uma alta de apenas 0,2% em relação a junho. A evolução configurou a sexta desaceleração mensal no crescimento do saldo. As concessões, porém, recuaram 4% — com destaque para os empréstimos a empresas, principalmente com recursos direcionados.

Segundo Túlio Maciel, chefe do departamento econômico do Banco Central (BC), essa queda nas concessões para empresas em julho é sazonal — mas a desaceleração anual já é reflexo do desaquecimento da economia. Maciel diz, também, que a moderação no crescimento do saldo tem um lado benéfico, da sustentabilidade. “A alta em um ano, de 11,4%, ainda é bem maior do que o crescimento do PIB, o que indica que o crédito continua contribuindo para a atividade. A moderação tem aspectos benignos. Um deles é a sustentabilidade. Essa expansão do crédito ocorre em um sistema financeiro robusto e com taxas de inadimplência bem comportadas e sem deixar de contribuir de maneira relevante para a atividade econômica, com expansão de dois dígitos”, afirmou Maciel. Ele antecipou em agosto já há sinais de retomada das concessões, principalmente no crédito a veículos, mas não quis adiantar os números.

O aumento do saldo foi novamente puxado pela ação dos bancos públicos, que aumentaram o saldo a R$ 1,5 trilhão, ou 0,7% em julho, em relação a junho. Os bancos privados emprestaram 0,2% menos e os estrangeiros, menos 0,7%.

A relação crédito/PIB situou-se em 56,1%, comparativamente a 56,3% no mês anterior e 54,8% em julho de 2013. As operações com pessoas físicas somaram R$ 1,331 trilhão, aumento de 0,5% no mês e 13,5% em doze meses, enquanto a carteira destinada às empresas totalizou R$ 1,504 trilhão, após declínio de 0,1% e expansão de 9,6%, nos mesmos períodos.

De qualquer forma, ele diz que esses sinais já permitem prever que no ano de 2014 o saldo deve registrar aumento de 12%, conforme o BC vem divulgando há dois meses — a revisão é feita de três em três meses e no mês que vem, na época da divulgação da nota de crédito referente a agosto, Maciel vai anunciar se a previsão continua igual ou será alterada.

Em relação às medidas anunciadas pelo BC — que juntas liberaram R$ 70 bilhões de recursos dos bancos — mais alguns estímulos a empréstimos de automóveis, casa própria e consignado a funcionários do setor privado, por exemplo, Maciel afirma que só devem ter efeito “na margem” sobre o crédito. Ele repetiu o que os diretores do BC vem dizendo, ou seja, que foram medidas macroprudenciais, de “desmonte” de restrições adotadas em 2010, quando a situação do crédito era diferente.

O descompasso verificado entre a evolução do saldo, que cresceu (ainda que ligeiramente), e as concessões, que caíram, se explica pelo fato de o saldo expressar o resultado líquido entre novos empréstimos e a quitação de antigos no período. Ou seja, apesar de junho ter registrado mais concessões do que em julho, o último mês teve menos liquidações.

Os juros cobrados voltaram a subir, de 21,1% ao ano em junho para 21,4% ao ano em julho (matéria ao lado), assim como os spreads — a diferença que existe entre as taxas pagas pelos bancos para captar recursos e a que cobram dos clientes nos empréstimos — também, de 12,7 para 13,1 pontos percentuais. Mas a inadimplência se manteve estável em 3%.

Considerando apenas os recursos livres, a situação é um pouco pior, nota Miguel de Oliveira, economista da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). “Os números de julho são um sinal de deterioração do cenário de crédito”, disse o economista. Para ele, o crédito com recursos livres reflete melhor a real disponibilidade dos bancos em emprestar. Aqui, além da alta dos juros, Oliveira aponta a alta da inadimplência também. O saldo das operações de crédito recuaram 0,5% em julho, comparado com o mês anterior, mostrando avanço de 5% em 12 meses. Neste caso, também foi o pior desempenho desde 2008.

Esse cenário de menor expansão do crédito vem junto com inadimplência e spreads maiores. Segundo o BC, no mês passado os atrasos nos pagamentos no segmento de recursos livres ficaram em 4,9%, maior em relação a junho, quando registrou 4,8%.

Para Maciel, do BC, há sinais claros de que a tendência é de queda, pois as taxas de atraso em prazos de 15 a 90 dias, que pode ser considerada um indicador antecedente, está em queda.

O economista chefe do Banco de Tokyo Mitsubishi, Carlos Pedroso, espera alta de 8% para o saldo do crédito neste ano. Para ele, o terceiro trimestre continuará devagar, devido a demanda sazonalmente mais fraca, e a queda na confiança de empresários e consumidores. “Mas o saldo pode reagir no último trimestre, também por razões sazonais”, acredita Carlos Pedroso.

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