Gasoduto de Eike dá prejuízo a estatal do Mato Grosso do Sul

Projeto iniciado há dez anos para abastecer uma térmica em Corumbá nunca entrou em operação e consome os lucros da distribuidora MSGás, controlada pelo governo do estado e pela Petrobras

Por O Dia

Dez anos após a assinatura do contrato de fornecimento de gás natural para a térmica idealizada por Eike Batista, em Corumbá (MS), o gasoduto construído para o projeto permanece sem uso. Com investimento de R$ 30 milhões e 35 quilômetros de distância, a tubulação foi projetada para trazer gás diretamente da Bolívia para a usina, que era parte de um projeto integrado de siderurgia vetado pelo presidente boliviano Evo Morales em 2006. Atualmente, o governo do Mato Grosso do Sul busca interessados em investir em projetos que garantam o uso do duto.

O projeto se tornou uma grande dor de cabeça para a distribuidora estadual de gás MSGás, controlada pelo governo e com participação minoritária da Petrobras, que teve que dar baixa do ativo, no valor de R$ 29,1 milhões, diante da impossibilidade de gerar receita com o gasoduto. Em seu último demonstrativo de resultados, referente ao ano de 2013, a empresa contabiliza um passivo descoberto de R$ 8,4 milhões, ainda resultado das perdas com a construção — o restante já foi compensado pelos lucros obtidos pela companhia nos últimos anos. A expectativa é que só a partir do próximo ano, a distribuidora criada em 2000 passe a entregar lucro a seus acionistas.

O ramal de Corumbá foi pensado no início da década passada, dentro de um projeto que previa a construção de duas térmicas e dois polos siderúrgicos nos dois lados da fronteira Brasil-Bolívia. O primeiro polo siderúrgico chegou a ter as obras iniciadas, mas foi suspenso em 2006, após um embate entre Eike Batista e o governo boliviano com relação ao licenciamento ambiental do projeto. Eike acabou expulso da Bolívia, com um prejuízo estimado em US$ 20 milhões. A térmica brasileira, batizada de Termopantanal, que teria capacidade instalada inicial de 44 megawatts (MW) também foi suspensa.

Na época, a ideia era fomentar a instalação de siderúrgicas também no lado brasileiro da fronteira, onde a MMX, do próprio Batista, a Anglo American e a Vale tinham atividades de extração de minério de ferro. A seu favor, Batista tinha um contrato de fornecimento de gás a preços melhores do que os praticados no resto do país, uma vez que o combustível viria direto da Bolívia, sem pagar as tarifas de transporte cobradas em território nacional. Como de costume, o anúncio do empreendimento foi feito com projeções otimistas, com a promessa de investimentos regionais e geração de até mil postos de trabalho durante as obras.

A direção da MSGás não foi encontrada para comentar o assunto. Em entrevista concedida ao diário sul-mato-grossense “Correio do Estado”, o diretor-presidente da companhia, Evandro Eurico Faustino Dias, disse que a tubulação vem sendo protegida por meio de investimentos em manutenção preventiva. Segundo ele, desde 2009, todo o lucro da empresa vem sendo usado para cobrir o passivo a descoberto provocado pelo projeto e por prejuízos obtidos nos primeiros anos de implantação da empresa por investimentos na rede de distribuição.

No ano passado, a MSGás teve lucro de R$ 1,49 milhões, queda de 41% com relação ao ano anterior. No melhor ano, 2009, o lucro foi de R$ 13,2 milhões. A empresa espera iniciar, este ano, atendimento à unidade de fertilizantes da Petrobras, em Três Lagoas, que deve melhorar os ganhos com a movimentação de gás natural. Além disso, inicia os investimentos para um novo grande cliente industrial no mesmo município, o projeto Eldorado, de produção de celulose. A MSGás fechou 2013 com 2,5 mil clientes, um crescimento de 14% com relação a 2012.

Fontes próximas ao governo do estado dizem que há um esforço para atrair clientes também para Corumbá, com o objetivo de iniciar a geração de receita a partir do gasoduto projetado para o projeto de Eike Batista. O esforço, porém, depende da disponibilidade de oferta de gás natural, escassa tanto no Brasil como na Bolívia. Brasil e Argentina, os dois principais clientes do país, têm demandado altos volumes e as reservas locais caíram para a casa dos 280 bilhões de metros cúbicos em 2012, segundo dados da Agência de Informação em Energia dos Estados Unidos (EIA). Em 2008, quando atingiu o pico, o volume era de 750 bilhões de metros cúbicos.

“Brasil e Argentina estão demandando maiores volumes e, em 2010, a Bolívia concordou em ampliar as exportações para a Argentina para 365 bilhões de pés cúbicos (o equivalente a 10,34 bilhões de metros cúbicos) por ano em 2017. Contudo, a demanda da indústria doméstica vem crescendo, o crescimento da produção é insuficiente e as reservas provadas estão caindo, o que cria dificuldades para o país atender suas obrigações contratuais”, diz o último relatório da agência sobre o país, de 2013.


Mina em Corumbá foi arrendada

Os efeitos da crise do grupo X em Corumbá não se resumem ao prejuízo da MSGás com o gasoduto. A MMX suspendeu as operações da mina que detinha no município em julho do ano passado, alegando que os altos custos não justificavam o investimento. Em julho, os direitos minerários foram arrendados pela Vetria, do grupo ALL, por US$ 500 mil por ano, que viu ganhos de sinergia com outro projeto na região e com a malha ferroviária.

Um dos carros-chefe do império sonhado por Eike Batista, a MMX é hoje uma das poucas empresas do grupo que permanecem sob seu comando. Há uma semana, a empresa anunciou férias coletivas e paralisação das atividades na sua mina de Serra Azul, o único projeto que tinha em operação. A medida foi justificada com os baixos preços do minério no mercado internacional e restrições ambientais para a ampliação das operações.

Com os maus resultados, a empresa tem sido bastante penalizada por investidores na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Em 12 meses, as ações tiveram uma desvalorização superior a 90%. Ontem, fecharam em queda de 2,13%,a R$ 0,92. No mercado, há rumores sobre um pedido de recuperação judicial, caso a mineradora não encontre sócios para garantir os investimentos necessários no projeto.

A empresa ainda não divulgou os resultados do segundo trimestre de 2014. Nos primeiros três meses do ano, registrou prejuízo de R$ 69,2 milhões. Ao final de março, a companhia tinha uma dívida de R$ 966 milhões — R$ 718 milhões referentes a débitos com fornecedores.

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