Karla Rondon Prado: Os ônibus e o bairrismo

É dispor do tempo e da paciência das pessoas esperar que, pagando por um serviço, aceitem mau tratamento

Por O Dia

Rio - Desci do ônibus no bairro seguinte. Eu e outras seis pessoas, com uma barraqueira gritando: “Boa sorte pra quem fica!” O motorista era um rapaz paulista ou paulistano, educado. Mas estava muito nervoso por dirigir e ter que dar troco ao mesmo tempo. Olhou para os que tentavam embarcar com Bilhete Único e pediu que descessem, para não atrapalhar a entrada de quem ia pagar com dinheiro vivo. Ninguém entendeu, mas desceu.

Algumas pessoas sem o menor tato começaram: “Aqui não é São Paulo, não!” Agressivas. Para que gritar isso para o sujeito que estava ali trabalhando? Acharam realmente que assim ajudariam? Ele: “Calma, pessoal, é R$ 3, mas pagam com muita moedinha de cinco, eu tenho que contar”. “Aqui no Rio é assim!”, berrou um. “Pô, o cara é paulista!” E todos começaram a rir. O motorista permaneceu em sua função, contando as moedas e dirigindo. Pensei se seriam machos o suficiente e gritariam isso num ônibus em São Paulo. E o que o fato de o motorista ser de outro estado representava, e que diferença fazia, para esse tipo de julgamento e bairrismo. Fato é que estavam todos ficando atrasados e ninguém estava a fim de esperar nada, muito menos de compreender qualquer dificuldade de terceiros.

Ao parar num ponto, o motorista perguntou se alguém poderia trocar dinheiro para ele, ou ele pararia num bar, porque estava com medo de perder as moedas. Uma mulher ofereceu R$ 4 em duas notas de R$ 2 e ajudou. Só que para isso ele estacionou para contar as moedas que trocaria. Estava com muito medo de ter que prestar contas e perder uma quantia grande. Que responsabilidade. Ao mesmo tempo, não foi contratado para isso? Não deveria estar preparado, depois de treinamento específico? Cheguei ao trabalho impressionada: “Se esse motorista não perder a paciência até o fim do dia é um santo. Não sei como manteve o controle.”

Mas também é dispor muito do tempo e da paciência das pessoas esperar que, pagando por um serviço, aceitem receber este tipo de tratamento. Ninguém tem tempo a perder. A condução deveria passar em horário definido, o motorista deveria estar apto para a função dupla, todos deveriam chegar em segurança aos seus destinos e as empresas não deveriam focar somente nos lucros, mas no bem-estar dos usuários e funcionários. Seria uma coisa Tostines, o biscoito (“vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?”). Ou que façam como em outros países, que o pagamento é com dinheiro trocado direto na máquina e o condutor nem toma conhecimento. É tão difícil assim melhorar?

E-mail: karlaprado@odia.com.br

Últimas de _legado_Opinião