Ana Cecília Romeu: Da mudez às urnas

É a brasilidade que aflora ao nos sentirmos parte desse imenso país-continente que podemos tocar com os dedos nessa hora como se pequenino fosse

Por O Dia

Rio - Participamos ontem de um evento extremamente importante para nosso país: as eleições. E o nosso voto é a nossa voz. Houve o período duro da mudez à força, e o “cale-se”, ainda que muitas vezes dissimulado, escamoteado, bateu à porta da maioria dos cidadãos brasileiros que vivenciaram a época da ditadura.

Recordo-me que minha mãe, naquele período, professora primária da rede estadual, contou-nos que recebia, vez por outra, a visita em sala de aula de uma mulher que se sentava à fila mais ao fundo com caderno de anotações, e, quieta, ‘analisava’ e registrava o conteúdo passado aos alunos. E que também na sala dos professores as poucas conversas tinham que versar sobre amenidades: telenovelas, moda.

Enquanto isso, eu e minha irmã, as duas em fase pré-escolar, cantávamos e nos divertíamos, assim como todas as crianças daquela época, com o refrão da música: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo. Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil”. Sentíamo-nos brasileiras. Não sabíamos o que havia por trás das letras; muito menos que existiam monstros de verdade e mais terríveis que o bicho-papão.

Hoje, quando ouço alguém dizer que não quer votar, me vem à mente esse período da mudez forçada do nosso país. E não entendo que alguns não queiram falar através do voto, que é o momento especial em que participamos da política do Brasil, em que estamos dentro de um processo decisivo. Isso me lembra aquele pássaro que, de gaiola aberta, não quer voar para fora dela.

Somos parte decisiva dos rumos do país, ainda que em apenas um voto, mas é a ferramenta de que dispomos, uma espécie de visto a um evento em que participar e poder ‘falar’ já nos torna privilegiados. O voto que nos dá voz, em detrimento a tantos sapos que gerações engoliram, e que quase tornou nosso reino um banhado consolidado.

Quando testemunho hoje minha mãe ir às urnas toda decidida e determinada, mesmo não tendo mais a obrigatoriedade do voto devido à sua idade, tenho muito orgulho dela. E ficamos todos ansiosos como se fôssemos a uma festa. É a brasilidade que aflora ao nos sentirmos parte desse imenso país-continente que podemos tocar com os dedos nessa hora como se pequenino fosse. Apenas um voto, mas é a nossa voz.

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