Cacau de Brito: Negro fora do poder

No Brasil, persiste uma nódoa clássica: os cargos de alta influência são representados majoritariamente por brancos

Por O Dia

Rio - Em seu longo discurso de posse, a presidenta Dilma Rousseff enfatizou um tema caro para 51,1% da população brasileira (pretos e pardos): a permanente construção da igualdade racial em seu segundo governo. Entretanto, na composição de sua equipe de trabalho, existe apenas uma pessoa negra entre os 39 ministros de Estado, ou seja, a ministra de Secretaria Especial de Igualdade Racial, a pedagoga Nilma Lino Gomes, cargo óbvio a ser ocupado por negros.

O fenômeno — a falta de representação negra em cargos executivos do poder público — acontece também no Estado do Rio. Por exemplo: não existem negros entre os secretários que vão auxiliar o governador Luiz Fernando Pezão. O fato também acontece há seis anos com o município, onde é difícil encontrar um secretário afrodescendente ladeando Eduardo Paes.

Estes fatos tendem a demonstrar algo corriqueiro no discurso ideológico das autoridades brasileiras: apoiam o combate ao racismo, mas não o encaram de frente. Agora, as antigas desculpas segundo as quais é difícil encontrar negros de grande referência profissional é mais complicado, pois eles existem, mas vagamente são lembrados para ocupar cargos de relevância.

Nesse sentido, no Brasil, persiste uma nódoa clássica: os cargos de alta influência são representados majoritariamente por brancos, enquanto a maioria da população é sub-representada nos três poderes. O caso do Legislativo nacional é muito emblemático. Segundo o TSE, dos 513 deputados eleitos, 79,9% se declararam brancos; 15,7%, pardos, e 4,29%, pretos.

Nesse sentido, achamos que os atuais governantes brasileiros poderiam se mirar no exemplo pioneiro do então governador fluminense Leonel Brizola (1922-2004), que, em seu primeiro governo em nosso estado (1983-1986), estreou com três secretários estaduais negros: Edialeda Salgado Nascimento (Promoção Social), Carlos Alberto ‘Caó’ Oliveira (Trabalho e Habitação) e Carlos Magno Nazareth Cerqueira (Polícia Militar). No segundo governo (1991-1994), Brizola criou a primeira Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, ocupada por Abdias do Nascimento (1914-2011).

Cacau de Brito é advogado e Presidente do Movimento o Rio Pede Paz

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