Por bferreira

Rio - Sei que é difícil, caro leitor. Mas tente, por uns poucos minutos, desassociar política de tudo que estamos lendo nos jornais e vendo na TV — a roubalheira exposta em casos como o Petrolão, os episódios de toma lá-dá cá, as relações espúrias de tantos governos com grandes empresas, as manobras do Eduardo Cunha, a incompetência do Palácio do Planalto, as mentiras contadas na campanha presidencial, o oportunismo da oposição que, derrotada nas urnas, busca pretextos para derrubar quem foi eleito.

Nada disso deveria ser chamado de política. São apenas deformações, práticas que um outrora sensato político chamou de “privatização do Estado” — o uso e o abuso do que é público em benefício de interesses particulares. Boa parte dos nossos políticos atua da mesma forma que os antigos invasores coloniais: como eles, ocupam territórios, submetem seus habitantes, roubam e traficam suas riquezas.

Claro que há diferenças entre políticos, seria injusto jogá-los na mesma vala comum. Não dá pra ignorar também a cumplicidade de eleitores que pregam moralidade e, de olho em futuras vantagens, renovam mandatos de notórios ladrões. Mas, insisto, essas bandalheiras não deveriam representar a política.

Política digna deste nome foi o que fizeram aqueles milhares de jovens paulistas que, diante de uma desastrada proposta do governo estadual, defenderam seus interesses de maneira efetiva e pacífica. Quando ocuparam escolas públicas — muitas delas ameaçadas de fechamento —, mostraram que política é a busca do bem comum e da melhor solução possível. Política está relacionada ao embate de opiniões, à exposição de divergências, à luta por ideias, à necessidade de se encontrar saídas que respeitem a maioria e não oprimam a minoria.

No auge da ocupação, uma autoridade do governo repetia, na TV, que o movimento era político. Sua declaração, que tinha o objetivo de desqualificar a luta, foi um elogio. Sim, a vitoriosa mobilização dos jovens era política, no melhor sentido da palavra. Aqueles garotos e garotas brigaram por uma sociedade melhor. Saem da briga cheios de orgulho e com os bolsos vazios, servem de exemplo para muita gente.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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