Ricardo Cravo Albin: Ressurreição na Paraolimpíada

O Maracanã chorou. Não por piedade, mas pela ressurreição de forças e de dignidade

Por pierre

Estes jogos paraolímpicos — insisto em abominar a castração do “o” do olímpico — acabaram por agora. Mas iniciam um sopro novo de comoção, uma brisa de ternura que nunca habitou os esportes.

Eu, por exemplo, nunca me expus à paixão visceral que o esporte pode invocar. Desde menino — confesso com certo constrangimento — era o último a ser escalado para as peladas no Campo de São Cristóvão, quando os impetuosos colegas do Pedro II (todos éramos internos) se queriam desenhar como futuros Rubens (Flamengo) ou Didis (Botafogo). Aliás, e nostalgicamente, resgato nomes de craques hoje desconhecidos, ou quase, já que Garrinchas e Pelés só irromperiam um pouco depois. A razão de ser desprezado pelo time tinha justíssimo procedimento. Perna de pau como eu era perigoso, até pelo temor da jogada mais indesejada dentre todas, o gol contra. Que, para meu desespero, cheguei a praticar.

Embora alimentando entusiasmo raquítico pelos esportes, comprovo que minha quase indiferença se ampliou por conta da desonrosa comercialização dos desportos nas últimas duas décadas. Inclusive o despudor dos craques em “virar casaca”, supremo insulto de deslealdade em tempos de Pelé, Zico e sua geração.

Pois bem, reabri os olhos e reaqueci o coração. Senti, de súbito, que nesta Paraolimpíada reveladora os sentimentos de coragem, de grandeza e de admiração se aliavam finalmente aos de solidariedade e de irresistível ternura. Alguém poderia me corrigir, acrescentando a comiseração. Não, qualquer sentimento de pesar será diluído por outro, muitíssimo mais eloquente e verdadeiro. Porque nada suplanta o conjunto de virtudes de essência que se chama superação. Esta milagrosa Paraolimpíada representou para mim a ressurreição dos esportes.

Há dias, na abertura dos Jogos do Maracanã, ocorreu um fenômeno que a história do estádio jamais terá visto, as lágrimas. Lágrimas que desabaram à passagem da Tocha. Especialmente quando uma atleta tropeçou e deixou cair das mãos o enfeitiçado bastão, a caminho da Pira. Ela levantou-se, altiva, e em passos firmes e solenes prosseguiu a marcha. O estádio chorou. Não por piedade, mas pela ressurreição de forças e de dignidade. Também em lágrimas, balbuciei para amigos que jamais tinha testemunhado momento mais eletrizante, alto e belo.

Ali, naquele instante, senti pela primeira vez a revelação, a magia que só seres diferenciados podem provocar. Que não é senão o fino mel que o milagre da superação pode destilar.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Institito Cultural Cravo Albin

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