Violência representa 80% das queixas ao redor da rodoviária

Reclamações de passageiros superam as de táxis piratas e distância entre pontos de ônibus

Por O Dia

Rio - X., de 60 anos, um dos 50 mil passageiros que utilizam a Rodoviária Novo Rio todos os dias, ainda não se conforma com o assalto que sofreu na Rua Comandante Garcia Pires, nas proximidades do terminal, semana passada. Atacado por três adolescentes aparentemente drogados — um deles armado com faca —, quando se dirigia à Avenida Francisco Bicalho, ele perdeu o celular e ainda levou socos e pontapés. Conta que foi a terceira vez que foi assaltado na mesma região.

De acordo com o Consórcio Novo Rio, que administra a rodoviária, a insegurança nos arredores do mais movimentado terminal do Brasil, depois de São Paulo, está em primeiro lugar entre as queixas no Serviço de Atendimento ao Consumidor.

Falta de policiamento nas ruas facilita a ação de bandidos no entorno da Rodoviária Novo Rio. Passageiros reclamam também da iluminação%2C que deveria ter melhor qualidadeFernando Souza / Agência O Dia

A violência dos ataques chega a ser citada por 80% dos usuários, e supera reclamações contra problemas antigos, como o transporte pirata e a longa distância para se acessar pontos de ônibus municipais, a maior parte a mais de 1 km. “É muito escuro nas redondezas. A péssima iluminação favorece a ação de bandidos. Eu podia ter morrido, pois um dos garotos tentou me esfaquear. Não conseguiu porque estava muito doidão”, lembra X.

Funcionária do guichê de uma viação da rodoviária, Elizabeth, 25 anos, também relata ter sido assaltada próximo ao terminal em abril. E também apanhou do ladrão. “Além de levar minha bolsa com meus documentos, ele ainda me deu um soco no rosto. Não tinha um policial por perto. Chorei muito, de raiva”, lembra.

A onda de violência na região pode ser mensurada pelo número de roubos a transeuntes registrados na 4ª DP, delegacia mais próxima da Novo Rio, a seis quilômetros de distância, localizada na Central do Brasil, outro antigo ponto de ataque de assaltantes.

Só este ano, foram registrados, até abril, conforme o Instituto de Segurança Pública (ISP), 475 casos desse tipo (média de quatro por dia), boa parte deles nas laterais e fundos da rodoviária. Nesse período, 53 celulares foram levados pelas gangues.

Os criminosos também agem no interior dos ônibus municipais e intermunicipais que circulam nas movimentadas, mas lentas, vias no entorno do terminal. Entre janeiro e abril, 76 veículos foram assaltados por lá.

“Muitos bandidos dão os chamados ‘ataques soviéticos’. Rápidos, eles avançam pelas janelas e arrancam relógios, celulares e óculos escuros dos passageiros”, comenta o rodoviário Erivaldo Messias, de 51 anos.

Jovem detido algemado após assaltar ônibus e se esconder em banheiro da rodoviária%3A pego com rouboMárcio Mercante / Agência O Dia


Batalhão reforça o policiamento nos feriadões

Questionado sobre a falta de segurança nas imediações da Rodoviária Novo Rio, o comando do 5º BPM (Praça da Harmonia) informou, através de nota, que “atua nos acessos à rodoviária e intensifica o policiamento durante os feriados, com apoio do Grupamento de Policiamento Transportado em Ônibus Urbanos (GPTOU).” O comando do batalhão não informou como é feito o policiamento à noite.

Já o Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTUr) alegou que dentro da rodoviária os policiais da unidade, que têm um posto fixo no local, contam com apoio dos vigilantes do consórcio e de agentes do Regime Adicional de Serviço (RAS) da corporação.

Dentro do terminal, há um sistema de câmeras que ajuda na identificação e prisão de suspeitos que agem na região e tentam se esconder dentro da rodoviária. No dia 22 de maio, um menor de 17 anos, que tinha roubado celulares e pertences de 30 usuários da linha Niterói-Castelo, da Viação Mauá, na descida da Ponte Rio-Niterói, entrou em um dos banheiros da Novo Rio e trocou de roupa. Alertados pelo passageiro Heraldo da Luz, 38 anos, vigilantes e policiais do BPTur apreenderam o adolescente em flagrante, com os produtos do roubo numa mochila.

Viciados e ladrões

Na rodoviária, 17 seguranças patrimoniais orientam quem desembarca a ficar atento com os riscos de assaltos porta afora. “O perigo é do lado de fora, entre 18h e 7h, quando há muitos viciados em crack, moradores de rua e bandos que atacam. Sem contar os táxis piratas, que cobram corridas no ‘tiro’ (sem taxímetro)”, ressalta um segurança.

A Secretaria Municipal de Transportes argumentou, também através de nota, que não tem ingerência sobre Segurança Pública. No âmbito de sua competência, porém, garantiu que reprime a circulação de táxis clandestinos.

“De janeiro a meados de maio, a secretaria vistoriou 1.640 táxis e lacrou 270, a maior parte na Rodoviária Novo Rio. As principais irregularidades encontradas foram apólice de seguro vencidas, vistoria anual obrigatória sem validade e mau estado de conservação dos automóveis”, explica o texto.

Até a meia-noite de hoje, a previsão é de que 282 mil pessoas, em 10 mil ônibus, de 43 empresas, passem pelas plataformas da Novo Rio, que investiu mais de R$ 50 milhões em seis anos em melhorias.

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