Romário, que já foi contra impeachment, declara: ‘O melhor seria a Dilma sair’

Senador volta a falar em ser prefeito e explica por que passou a defender o impeachment da presidente da República

Por O Dia

Senador RomárioDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Rio - Decisivo como jogador, o senador Romário (PSB) ainda mostra uma certa indecisão quando o assunto é política. Há pouco dias, o Baixinho era contra o impeachment de Dilma e não falava em ser candidato a prefeito do Rio.

A malandragem, no entanto, continua a mesma. Político em todos os sentidos, ele diz que a vida é dinâmica e, por isso, agora se coloca contra a presidente e como pré-candidato a sucessão do seu parceiro Eduardo Paes, contra Pedro Paulo Carvalho, Crivella & Cia.

Individualista dentro de campo, ele promete ter aprendido a jogar coletivamente fora dos gramados e garante que não existe candidato que conheça melhor o Rio de Janeiro do que ele.

O DIA: Há um mês o senador Marcelo Crivella seria o candidato a prefeito pelo PSB com o seu apoio. Agora mudou. Você, que já tinha lançado a pré-candidatura, e depois desistido, resolveu concorrer de novo. Você não era tão indeciso assim dentro da área. O que aconteceu?

Eu aprendi nestes cinco anos que a política é super dinâmica. Vocês têm que acreditar no que eu digo, não nas notícias que saem. Você me conhece e sabe disso. Eu nunca tinha falado que iria apoiar A, B ou C. Meu pensamento em princípio era não ter a certeza de que seria candidato. E hoje estou afirmando que sou pré-candidato. É o que vale. Fora isso, nada mais é importante.

Isso pode mudar?

Não sei. Assim como eu, há outros pré-candidatos. Para concorrer, tenho que ter pelo menos 50% de chance de ganhar. Posso te afirmar que no dia D, na hora de definir a candidatura ou não, se eu tiver estes 50% de chance de ganhar, participarei da eleição e mostrarei que sou o melhor para a cidade. Aprendi com meu pai e já falei isso para você algumas vezes, na época do futebol e agora, que só entro em campo se eu tiver pelos menos 50% de chance de ganhar.

Mas o que mudou na sua cabeça nos últimos meses para você decidir, de novo, pela pré-candidatura?

Estes últimos acontecimentos que a gente tem vivenciado, essa conjuntura política da cidade do Rio de Janeiro. É um momento interessante e eu me vejo num perfil de quem pode, pelo menos, disputar a eleição.

E o acordo com o Crivella?

Não posso falar por ele. Não sei o que houve para ele não vir. As portas sempre estiveram abertas para ele. Acredito que foi lá dentro do PRB que decidiram que era melhor ele não vir. A gente respeita. Tenho grande apreço por ele e, pelo que sei, também é candidatíssimo a prefeito pelo PRB. Será um adversário de alto nível.

Você também disse que poderia apoiar o Pedro Paulo, candidato do Eduardo Paes e do PMDB. Em acordo, você indicou o secretário de Esportes, Marcos Braz (que entregou o cargo na semana passada). Relações rompidas?

Nunca manifestei apoio ao Pedro Paulo. Assumi compromisso com o Eduardo de ajudar o esporte na cidade. Quando ele me convidou, perguntou se poderia ajudá-lo neste período pré-olimpíada, já que esporte tem tudo a ver comigo. Ele tem consciência das coisas positivas que tenho feito em meu mandato e aceitei o convite. Fizemos, através do Marcos Braz, um grande trabalho. Mas isso nunca foi condicionado a uma ajuda direta ao Pedro Paulo. Quando entregamos a secretaria, disse a ele que voltaríamos a conversar. Foi o que sempre falei para você: as pessoas têm mania de falar pelos outros. Eu sou responsável pelo que escrevo e pelo que falo, não pelo que as pessoas interpretam. Eu até respeito, mas nem sempre é o que eu falei. A parceria que eu tive com a prefeitura acabou com relação à secretaria de Esportes, mas me sinto parceiro da Prefeitura e do Governo do Estado até porque, como senador pelo Rio, não poderia ser diferente. Se alguém quiser ajudar o Rio, pode me ter sempre como parceiro.

É preciso trabalhar em parceria?

Sim. Foi isso que eu aprendi nestes anos. Temos que trabalhar com o maior número de pessoas possível, independentemente de siglas, para fazer o que for bom para o Estado. Por mais que sejamos adversários políticos, quando falamos do nosso Estado ou da minha cidade, tem que se unir todo mundo. Entreguei o cargo na prefeitura, mas se ele precisar de uma ajuda, uma sugestão, de algum projeto, farei com o maior prazer.

E como você avalia o recente escândalo envolvendo a agressão do Pedro Paulo à ex-mulher?

Comigo nunca aconteceu e nem posso dizer que isso faz parte da vida. Se comigo nunca aconteceu, da minha vida não faz parte. Mas eu aprendi a respeitar as pessoas. É uma situação delicada para ele, ruim, e as pessoas não esquecem de atos como este. Eu só espero que, independentemente do que acontecer com ele futuramente, não traga isso para a vida dele como homem público. Foi uma infelicidade. E repito: discordo de quem fala que acontece com qualquer um pois não aconteceu e nunca vai acontecer comigo. E com milhões de pessoas também nunca aconteceu. Mas cada um tem sua forma de viver.

Você já se imaginou sentado na cadeira de prefeito, com tantas obrigações, tendo de despachar com um monte de gente? Você foi craque, mas tinha também a fama de jogador que não treinava durante a semana, mas resolvia no domingo, em campo. Só que a prefeitura você não domina como a grande área. É um pato novo.

Não posso te dizer como será porque nunca fui prefeito. Posso dizer que existia uma desconfiança muito grande a meu respeito, de todo mundo, inclusive de minha parte, quando fui eleito deputado. E fiz quatro anos de mandato bem positivos, superei a desconfiança e o fui eleito senador com 4,6 milhões de votos. Um recorde. As pessoas sabem que eu tenho condição de fazer coisas diferentes também na política, como fiz no futebol.

Por exemplo?

Principalmente transparência e seriedade. A possibilidade de ser prefeito também mexe comigo porque é a posição política mais charmosa do país. E é de uma responsabilidade enorme. Quando eu tiver de definir se serei candidato ou não, pois hoje sou apenas pré-candidato, é porque cheguei à conclusão de que terei essa capacidade. E te digo que pode ter alguém que conheça o Rio igual a mim. Mais do que eu, não tem.

Por quê?

Eu vivi o lado pobre e hoje tenho uma condição financeira muito boa pelo que fiz no esporte. Então, posso dizer o que as pessoas precisam para ter uma condição de vida melhor. Não sei se os outros podem fazer o mesmo.

Você também tinha fama de individualista, fominha, quando jogador. Eu não assino embaixo dessa teoria. Mas é sua fama, de só jogar dentro da pequena área. E ser o melhor ali. Mas o prefeito tem que jogar nas onze, correr o campo todo. Está preparado?

Isso é muito relativo. Dos 1.002 gols que eu fiz, se não fosse individualista em vários momentos, não teria feito os gols. Mas em todos os momentos que eu não tinha de ser individualista, não fui. Pode perguntar a todos os meus ex-companheiros. Todos! Você conhece vários. Nenhum vai chegar para você e dizer que fui individualista no sentido negativo da palavra. Tem horas que você tem que decidir. E eu sempre decidi da melhor maneira que considerava para mim. Na política, posso te dizer que o sucesso do meu mandato não se deu porque eu faço ele sozinho. Tenho pessoas que me acompanham que são sérias, politizadas e têm o mesmo objetivo que eu, que é ajudar as pessoas a melhorar de vida. Na prefeitura será assim, se eu for eleito. E que Papai do Céu me dê sabedoria para colocar as pessoas certas nos lugares certos, para que eu possa fazer uma boa administração. Eu tenho consciência de que sozinho eu não ando.

Como você vê o atual momento político do país, com muita gente falando em golpe militar, uma crise política que há muito não se via...

Acho tudo muito ruim. Se a gente for falar em golpe, acho que o governo acabou de dar um golpe no povo nomeando o Lula ministro da Casa Civil. Independentemente de ele ser culpado ou não. Não foi uma ação positiva em relação à respeitabilidade do povo.

Foi uma bola fora?

Totalmente fora. É mais um motivo para o povo ir às ruas e se colocar contra o governo. E alguma coisa tem que acontecer, e espero que essa mudança venha das ruas. Sem violência. Sem golpe militar. Estamos longe disso.

Você é contra ou a favor do impeachment?

Lá atrás eu me coloquei contra porque não tinha as coisas muito claras na cabeça. Mas hoje acho que o melhor é a nossa presidente deixar o poder. E que assumam outras pessoas. Se você me perguntar quem seria o nome ideal para assumir, vou te dizer que não sei. Não tenho condições de apontar uma pessoa capaz de resolver os problemas. Mas acredito que tenham pessoas capacitadas para isso.

A campanha para prefeito não será fácil. E você terá novamente que responder sobre as contas da Suíça, que inicialmente você falou que não tinha, depois falou que teve. Como está essa questão?

Na verdade, nunca falei que tive. A pergunta foi se eu já tive aquele tipo de conta que saiu na revista Veja, na Suíça. Falei e repito: aquele tipo de conta eu nunca tive na Suíça, nem em lugar nenhum. Já tive várias contas na minha vida em vários lugares do mundo porque joguei nos quatro continentes. Mas não tenho mais há muitos anos. Não sei se você sabe, mas eu acredito que sim, que pedi ao Ministério Público, ao Janot (procurador-geral da República), pessoalmente, para que ele entrasse em contato com o Ministério Público suíço, para que eles pudessem, o mais rapidamente possível, finalizar logo esse assunto.

Eu fui lá pessoalmente, no banco, e mostrei que não tenho conta. Não posso ter uma conta em quinze dias. Fui lá e mostrei que não tenho. E quinze dias depois eu tenho? Eu já te falei que só sou responsável pelo que eu falo, não pelo que as pessoas escrevem. Muitas coisas ficam mal entendidas, ou mal colocadas porque existem determinados tipos de jornalismo que não fazem o jornalismo que tem que ser feito, o correto. Principalmente aqueles que não gravam. Não será o teu caso porque tu está gravando tudo aqui e não tem como eu dizer amanhã que o que eu falei não existe. Mas você sabe que existem meios de comunicação, e você como jornalista sabe mais do que eu, que estão aí para prejudicar. Que em vez de dar os projetos que eu faço e são importantes, que ajuda as escolas, que ajuda as mulheres, que beneficiam quase 50 milhões de pessoas com deficiência, isso ninguém tem interesse em colocar. Mas quando é uma matéria negativa, independentemente da matéria, seja essa (das contas) ou não, têm interesse em colocar.

Eu queria agradecer às pessoas que sempre acreditaram em mim e repito: não devo nada a ninguém, sou uma cara limpo, decente, e minha política é correta. E vai ser assim até o final. Independentemente se serei prefeito ou não, vou continuar na minha correção porque tenho uma índole. E não vou decepcionar minha mãe, meus amigos, meus filhos e meus eleitores nunca. Nunca!

Se essa bola for novamente levantada na campanha, você, então, vai matar no peito e sair jogando com tranquilidade?

Como sempre foi. Mas eles não vão levantar porque eles sabem que isso não existe.

Em todas as nossas últimas entrevistas eu te fiz esta pergunta, e não vou deixar de fazer: Messi já é melhor que o Romário?

Messi é, sem dúvida, o melhor jogador do mundo, sobretudo pelo que fez neste últimos anos. Mas para chegar ao Romário ainda está longe (risos)

E o futebol brasileiro, para encerrarmos?

Uma merda. Uma merda! Nessa CBF só tem ladrão. Cada um roubando mais do que o outro. No começo eu entendi que o objetivo de todos na CPI do Futebol era ajudar, mas infelizmente, e depois da última reunião que tivemos, vi que existe a bancada da CBF dentro da CPI. Vou continuar brigando e guerreando para que a gente consiga fazer um relatório no mínimo mais ou menos, porque se depender deles, o relatório vai ser horroroso. Mas tem também o lado positivo, pois eu tenho direito, como presidente da CPI, de fazer o meu relatório. E farei o meu. E vou ler o meu no plenário. E entregarei ao Ministério Público, à Polícia Federal e a todos os demais órgãos competentes para fiscalizar estes escândalos que temos visto por aí.

Tem mais alguma coisa a dizer?

Queria que você colocasse que um dos motivos que fizeram eu decidir ser pré-candidato foi a vinda do Hugo Leal para o PSB. Um deputado federal no terceiro mandato, que deixou de ser pré-candidato no antigo partido dele (Pros) para vir me apoiar. Isso mostra que a minha política é uma política de alianças. Não sou individualista como você falou.

Ele é um bom pré-candidato a vice-prefeito na chapa?

Não sei se faremos uma chapa puro-sangue, mas vai nos ajudar bastante na campanha.

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