Uma bolsa para o Rio

Carioca e botafoguense, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foi secretário da Fazenda do Estado e tem tudo para apoiar a causa

Por O Dia

Houve tempo em que a Petrobras era o carro-chefe do pregão e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro dominava os negócios no mercado de ações. No austero prédio da Praça XV, ao lado do Paço Imperial, a sala de imprensa ficava repleta de repórteres dos principais jornais e revistas em busca de informações sobre os rumos das empresas. Nos dias de maior agitação, faltava lugar para todos. Com mais de 150 anos, a BVRJ era um espelho da economia fluminense. Até o início da década de 80, todos os grandes bancos, à exceção do Bradesco, tinham matrizes na cidade, que está comemorando seus 450 anos. A capital federal já havia sido transferida para Brasília, mas o Banco Central mantinha sua mesa de open market e de câmbio nas antigas instalações da Rua Pio X, na Candelária. Se São Paulo comandava a indústria, o Rio dava as cartas como principal financeiro do país.

Isso tudo pertence ao passado. Os grandes bancos mudaram-se para São Paulo, o BC instalou-se definitivamente em Brasília e a Bolsa do Rio simplesmente foi extinta. A Petrobras, vale ressalvar, continuou com muita força nos pregões, mas agora vive dias de inferno astral. A vida é assim mesmo. A decadência não tem data marcada. Roma não caiu num dia determinado. Para parafrasear o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, tudo que acontece na economia faz parte de um processo. Foi exatamente o que aconteceu com a BVRJ. Seu desgaste acompanhou o esvaziamento econômico do Rio, mas, a partir de certo momento, foi acelerado como reflexo da competição com São Paulo.

Era, de fato, uma situação curiosa. À exceção de Vale, Petrobras e Banco do Brasil, as principais ações pertenciam a empresas com raízes paulistas. Mas a BVRJ concentrava mais de 80% do volume de negócios do mercado de ações. Falava alto a tradição, para desgosto dos corretores de São Paulo. Um deles, Eduardo da Rocha Azevedo, ao assumir a presidência da Bovespa, decidiu acabar com a hegemonia do Rio. Levou para o prédio da Rua Álvares Penteado, no Centro Velho, experientes executivos do mercado carioca e, aos poucos, equiparou a Bovespa à BVRJ. Conta-se que, nas primeiras vezes em que o volume da Bovespa foi maior, Rocha Azevedo mandou abrir garrafas de champanhe no pregão. A disputa tornou-se acirrada até que ocorreu o famoso e polêmico caso envolvendo o megaespeculador Naji Nahas. Após se desentender com Rocha Azevedo, Nahas passou suas aplicações para a Bolsa do Rio e foi recebido em festa pelos corretores locais. Havia chance de retomar a liderança, mas saiu tudo errado. Nahas não conseguiu honrar seus compromissos e a BVRJ, já fragilizada, quebrou. Nunca mais foi a mesma e fechou as portas no ano 2000.

São Paulo ganhou o páreo, mas o país jogou fora um longo histórico de know-how em finanças. Agora, quinze anos depois, surge uma luz no fim do túnel. Conta o colunista Ancelmo Gois que governador Luiz Fernando Pezão pretende se empenhar junto ao ministro Joaquim Levy e à Comissão de Valores Mobiliários para que o Rio volte a ter sua Bolsa. Está em discussão a montagem de um braço da Bolsa Mercantil de Nova York (Nynex), talvez na Praça XV. O ministro Levy, como se sabe, é carioca e botafoguense e foi secretário da Fazenda do Estado. Ele tem tudo para apoiar a causa. Seria um belo presente de aniversário para a cidade fundada por Estácio de Sá em 1º de março de 1565.

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