Erros atrás de erros

O núcleo encarregado da interlocução com o Congresso não disse ao que veio. Assim não há comunicação que resolva o desgaste do governo Dilma

Por O Dia

Fontes do Palácio do Planalto interpretaram que o presidente do Senado, Renan Calheiros, devolveu a medida provisória 669, que anula o programa de desoneração da folha de pagamento das empresas, em retaliação ao governo Dilma Rousseff. Ele teria sido informado sobre a inclusão de seu nome na lista de políticos envolvidos na Operação Lava-Jato que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, encaminhou ao Supremo Tribunal Federal. Irritado, deu o troco. É uma versão. A outra, das mesmas fontes, é que o senador, com seu gesto, tentou dividir o noticiário do dia que se centrava no arrolamento dos políticos citados no inquérito do escândalo da Petrobras. Esta é uma hipótese plausível. Mas a da retaliação não tem pé nem cabeça. Renan não vive no mundo da lua. E sabe muito bem que decisões da PGR e do Ministério Público Federal não são da alçada da Presidência da República e muito menos dependem de aval do Planalto. Na democracia, os Três Poderes são independentes.

Causa espanto, portanto, a leitura equivocada dos assessores de Dilma Rousseff. O que não chega a ser, propriamente, uma novidade. O grupo palaciano que está incumbido de manter azeitada a interlocução com o Congresso ainda não disse ao que veio. Ao contrário, comete erros atrás de erros. A toda hora é atropelado pelos fatos e deixa a presidente em apuros. O ministro das Relações Institucionais, Pepe Vargas, vem cumprindo à risca a previsão do ex-presidente Lula sobre seu desempenho. Ao saber da nomeação, Lula não escondeu a decepção e afirmou que Vargas não tinha trânsito entre os parlamentares e não era o nome adequado para o cargo (ontem falava-se de sua substituição). O ex-presidente também não ficou feliz com a troca de seu amigo de fé Gilberto Carvalho por Miguel Rossetto, na Secretaria Geral da Presidência, que lida com os movimentos sociais. Para completar, também fez críticas ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que estaria mais preocupado com seus projetos pessoais de poder, e cobrou mudanças na comunicação social.

O julgamento de Lula pode parecer severo demais. Mas o fato é que o núcleo político do governo foi pego de surpresa pela decisão de Renan, que obrigou Dilma a trocar a MP por um projeto de lei. Para agravar o quadro, não há desencontro só no relacionamento com a base aliada. O governo Dilma, neste início de mandato, enfrenta problemas em quase todas as frentes. Encarapitados em seus gabinetes do Planalto, os principais assessores da presidente não conseguiram identificar a tempo a insatisfação dos camioneiros que levou ao bloqueio de estradas. Só negociaram depois do fato consumado. Da mesma forma, não devem saber que os profissionais da Educação estão em pé de guerra. Há um profundo descontentamento com o atraso na liberação de verbas do setor. Desde janeiro, as universidades federais não tem dinheiro sequer para pagar o pessoal terceirizado que cuida limpeza. Alguns trabalham por mera consideração aos professores.

Responsável pela chave do cofre, o ministro Joaquim Levy, que é PHD em economia, certamente não sabe que, sem verbas, a Capes parou de cobrir as despesas com viagens de acadêmicos pelo país para participar de bancas de mestrado e doutorado. Até estudantes que defendem teses estão pagando passagens e hospedagem do próprio bolso. Assim não há gênio de comunicação que resolva o desgaste na imagem do governo Dilma.

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