A enfermidade japonesa

Nova queda do PIB faz com que o Japão esteja tecnicamente em recessão e coloca em dúvida a resposta dada a uma crise que parece resistir a remédios puramente macroeconômicos

Por O Dia

Depois de o governo japonês adotar fortes estímulos monetários e fiscais, aquela economia volta ao estagio letárgico que tem sido sua marca registrada nas últimas duas décadas. Esta situação reflete uma nova conjuntura global, caracterizada por incertezas que dificultam a reação dos governos e do setor privado. Trata-se de uma enfermidade cuja cura ainda vai demorar a ser encontrada e atinge grande parte da economia global.

Até recentemente havia enorme expectativa em relação às medidas econômicas, de estímulos monetários e fiscais, adotadas desde o retorno político do primeiro-ministro Shinzo Abe em dezembro de 2012. Além das medidas expansionistas, o governo japonês comprometeu-se a elevar imposto sobre o consumo de 5% para 8% — medida voltada a reafirmar uma postura de responsabilidade fiscal, já que o Japão tem tido déficit fiscal altíssimo (em média 8% do PIB nacional) e uma dívida pública que já ultrapassa 240% da mesma medida.

O resultado desta mistura eclética foi inicialmente positivo: um crescimento anualizado do PIB de 6.7% no primeiro trimestre de 2014, puxado especialmente pelo consumo. Era sabidamente temporário mas, mesmo assim, surpreendeu (negativamente) o dado para o segundo semestre: um retração anualizada de 7.3% no PIB. E mesmo os mais pessimistas não poderiam imaginar o que se seguiria: a continuação do encolhimento da economia, com a retração trimestral (anualizada) de 1,6% do PIB. Este resultado faz com que a economia japonesa esteja tecnicamente em recessão, e coloca em dúvida a resposta dada pelas autoridades a uma crise que parece resistir a remédios puramente macroeconômicos.

De fato, a enfermidade japonesa parece ter raízes profundas. A redução secular do crescimento era perceptível desde fins dos anos 80, ápice do milagre econômico japonês, quando o crescimento chegou a atingir 9,4% (no primeiro trimestre de 1988). A perda de dinamismo contrasta com a ascensão das economias emergentes asiáticas como polo de expansão global; e não por coincidência: ao longo dos anos, por exemplo, a China passou a destronar as principais economias industriais e se transformou no principal parceiro comercial do Japão (19% das exportações e 22% das importações), seguida dos Estados Unidos (18% e 8,5%, respectivamente).

Até 2008 estávamos, efetivamente, em um processo de mudança de eixo de crescimento mundial das economias maduras para as economias emergentes, de redefinição das cadeias globais de produção, e de redesenho da divisão internacional do trabalho. O Japão, com muito esforço, procurava adaptar-se a esta realidade, transferindo parte de sua produção para economias asiáticas, com abundância de mão-de-obra barata e acesso aos principais mercados mundiais. Mas mesmo as subsequentes políticas fiscais expansionistas, que elevaram significativamente a dívida pública ao longo dos anos, não puderam evitar a perda de dinamismo da economia japonesa causada por esta mudança do eixo de crescimento global.

A crise global provocou inicialmente uma retração do PIB japonês (em torno de 10%). Mas também deu início a novo capítulo desta novela, ao gerar mais uma mudança de trajetória da economia global. O primeiro sintoma desta mudança foi a retração do comércio, seguida pela redução do seu crescimento. O segundo tem sido a redução dos investimentos estrangeiros diretos (IED) voltados para criação de capacidade produtiva, num contexto de crescimento do IED global. O terceiro tem sido uma tendência das economias maduras, especialmente os Estados Unidos, em procurar “repatriar” os investimentos e reconstituir a capacidade produtiva local.

Não parece, portanto, coincidência que, neste quadro, o governo japonês não consiga encontrar uma cura adequada para esta perda prolongada de dinamismo econômico. Mais do que um problema de um único país, a enfermidade japonesa parece refletir um mal coletivo: a necessidade dos governos e setores privados locais de se adaptarem a uma crise que deixou um rastro de incertezas, inclusive sobre a estratégia nacional a seguir para enfrentá-la.

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