O declínio do emprego industrial

Nos sete primeiros meses de 2014 a indústria foi consolidando seu pior momento na geração de empregos desde que se tem dados do IBGE, a partir de 2002

Por O Dia

Somente em julho último, frente a junho, o declínio chegou a 0,7%, o quarto consecutivo, agravando o resultado negativo no ano, que já chega a 2,6%. Poucas análises têm se debruçado sobre o fato de que a indústria já acumula praticamente três anos de ininterrupta queda de seu efetivo na comparação anual. Com isso, está quase devolvendo todo o crescimento que promoveu desde que iniciou uma fase relativamente longa de aumento do emprego em fins de 2003.

Foram dois momentos distintos nesse processo de evolução. O primeiro, iniciado em outubro de 2003, estendeu-se até as vésperas da grande crise mundial de 2008, período no qual o emprego cresceu 8,5%, o que colocou a indústria como um dos setores que contribuíram para o aumento do emprego no país. Como se sabe, o setor industrial oferece empregos de qualidade, vale dizer, formais e com rendimentos relativamente mais altos, enquanto para os setores que lideraram a formação de empregos — notadamente, serviços — a qualificação menor, a remuneração mais baixa e a informalização têm maior expressão.

Pois bem, não levando em conta o vai e vem do emprego no ano mais agudo da crise mundial (2009) e no ano de recuperação (2010 e parte de 2011) e tomando somente os últimos 36 meses, o declínio acumulado do emprego já atinge a 6,4%. Ou seja, como foi anteriormente observado, a indústria brasileira está prestes a anular o maior emprego gerado no ciclo anterior. Como cabe notar, a redução do número de horas pagas pelo setor durante o período mais recente já supera o crescimento correspondente ao primeiro período.

A fase adversa do emprego da indústria é decorrência principalmente do longo período de moeda valorizada, de mercados externos enfraquecidos e submetidos à uma extraordinária concorrência, de altos custos de produção internos e elevados custos sistêmicos, e de uma relativamente baixa produtividade do setor, o que deprime sua produção e consequentemente destrói empregos. Em outra parcela, o menor nível de emprego decorre de ações adotadas pelas empresas para preservarem sua posição de mercado interno ou externo e que levam a uma maior automação. Uma melhora no primeiro conjunto de fatores levará a uma recuperação parcial do emprego, mas os empregos destruídos pela automação certamente jamais serão recriados.

Para mudar este quadro da indústria é necessário enfrentar velhos e conhecidos pontos da agenda brasileira: reforma e simplificação da estrutura tributária, geração de investimentos eficazes em infraestrutura, ajustes na política cambial e de juros para atender às necessidades de competitividade e de financiamento dos setores produtivos. À indústria cabe aumentar significativamente sua produtividade e sua capacidade inovadora.

Do equacionamento dos temas macroeconômicos e do “custo Brasil” é que os custos de produção serão reduzidos, a produtividade da economia será impulsionada e se desenvolverá um ambiente favorável à execução de uma política industrial e de inovação capaz de contribuir para transformar a indústria em um setor competitivo e de alta produtividade.

A crise do emprego industrial é o aspecto mais visível do momento difícil pelo qual a indústria vem passando e que vai se alastrando cada vez mais para os demais setores da economia brasileira. Além disso, a crise no mercado de trabalho da indústria é cada vez mais geral: aparece em diferentes ramos produtivos e em diferentes localidades do país.

Nos sete primeiros meses do ano, o número de ocupados na indústria caiu em 13 dos 14 locais pesquisados pelo IBGE e em 14 dos 18 setores. São Paulo, o principal centro industrial do país, apresentou o maior impacto negativo no emprego, –3,7%. Setorialmente, os impactos negativos mais relevantes foram em produtos de metal (–6,7%), máquinas e equipamentos (–5,0%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (–6,7%), calçados e couro (–7,7%) e meios de transporte (–3,7%).

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