Prestes a lançar um CD, Marcelo Yuka fala de amor, sexo e da saída do Rappa

Músico, que pretende atravessar a Baía de Guanabara numa canoa havaiana adaptada, fala ainda sobre sua militância em autobiografia

Por O Dia

Rio - ‘O Facebook é maravilhoso para mim, porque lá faço minhas militâncias, até procuro enfermeiro. Mas o mais engraçado é que sou bastante assediado pelas mulheres lá! E o ataque é soviético!”, brinca o músico Marcelo Yuka. Ele acaba de lançar o livro de memórias ‘Não Se Preocupe Comigo’ (Ed. Primeira Pessoa/Sextante, 240 págs., R$ 29,90), em parceria com o escritor e produtor Bruno Levinson. Baleado em 2000 numa tentativa de assalto na Tijuca — e cadeirante desde então —, o músico fala abertamente sobre amor e sexo na livro, de uma forma que espantou até o coautor Levinson. 

O músico Marcelo Yuka com um dos sprays que usa para pintarAndré Luiz Mello / Agência O Dia


“Nunca tinha visto um cadeirante falar sobre isso da forma que ele falou”, diz o produtor. Yuka chegou a alertá-lo de que não seria um trabalho fácil. “Ele achava que eu não ia aguentar, que era barra pesada. No livro tem momentos tristes, como os tiros, a ocasião em que ele pensou em se matar. E já aconteceu de eu sair daqui (da casa de Yuka) transtornado com as coisas que ele me falava. Mas disse que se ele queria assim, estávamos juntos. Acho um absurdo ele ter dificuldade financeira, precisar brigar com o plano de saúde para ter um tratamento digno.”

“O livro é o projeto mais, digamos, egoísta no qual me envolvi e essa parte em que falo de sexo e amor é que tem mais cara de ‘serviço’”, conta. Yuka diz que não foi fácil se adaptar à nova realidade. “Quando me tornei cadeirante, peguei não só todos os estereótipos negativos ligados a isso, como também estava sob o período de choque medular. Nessa época, não sentia nada. Só bem depois vi que era possível e prazeroso fazer sexo. E as mulheres que toparam ficar comigo nessas condições me mostraram um amor revolucionário.”

A autobiografia — cujo título foi tirado do único hit de sua banda pós-Rappa, F.UR.T.O — revela os namoros de Yuka com mulheres famosas, como a promoter Alicinha Cavalcanti (“ela é uma mulher fascinante”) e a apresentadora de TV e atriz Chris Couto. Yuka diz que, atualmente, anda pensando em se casar.

“Estou aberto a isso. Mas acho que sempre estive. Quando meu irmão se casou, meu pai até falou para ele: ‘Casa mesmo, casar é bem legal. Eu mesmo já me casei dez vezes!’”, brinca. Yuka confessa já ter se interessado e se desinteressado por várias mulheres. “Olha, eu lembro que vi uma vez o filme ‘Lua de Fel’ (do Roman Polanski) e lá tem aquele personagem que sacaneia a mulher e fica na cadeira de rodas. E recebe o troco dela. Eu pensava: ‘C..., isso pode acontecer comigo.’ Hoje, cuido para que a coisa seja mais forte do que fugaz.”

Levinson e Yuka começaram o livro — escrito na primeira pessoa, como se fosse um longo depoimento do músico — há cinco anos. “Vinha aqui conversar com ele e também ia nas palestras dele, em visitas a presídios”, conta Levinson. Os dois se conhecem desde os anos 90, o que facilitou na hora de colher informações.

“O Yuka é uma pessoa muito generosa. E é um cara que tem um humor muito peculiar, se sacaneia o tempo todo”, diz Levinson. A intimidade entre os amigos de duas décadas é total. “Eu sacaneio bastante o Yuka, às vezes chego aqui e falo: ‘Pô, levanta dessa cadeira’, ou ‘Yuka, você tá com um tênis lindo. Me dá aí, pô. Você nem tá usando!’ Maltrato-o, às vezes!” 

Ele conta que gostaria muito que o livro virasse um filme. “Tem tudo ali que o cinema gosta: tiros, sexo, música. Mas acho que o principal é que todo mundo possa ter mais um pouco de Yuka em suas vidas. Fico feliz de ver uma garotada como o (grupo de rap) Cone Crew Diretoria, que nem viu o Yuka no Rappa, fazendo um clipe com ele (o de ‘Pronto Pra Tomar o Poder’).”

Além de lançar o livro, Yuka finaliza seu primeiro CD solo, planeja uma exposição com as pinturas que faz (e espalha por toda sua casa) e se exercita para fazer em dezembro uma travessia pela Baía de Guanabara, numa canoa havaiana adaptada. “A costa marítima brasileira não é inclusiva”, denuncia. “Tem projetos para que cadeirantes possam ir à praia, mas eles funcionam até determinado horário. Pô, praia tem botão de ligar e desligar? Se eu quiser ir à Prainha (na Zona Oeste), que não tem projeto, não posso? E o direito de ir e vir?” 

Bruno Levinson e Marcelo Yuka na cozinha da casa do músico%2C na TijucaAndré Luiz Mello / Agência O Dia

‘Eu estava chorando, gritando de dor e deprimido’ 

No livro de memórias, Yuka dá sua visão sobre a saída do Rappa. ‘Peguei pesado, mas é minha história e tenho direito de contá-la’, diz

O dia a dia de Yuka tem sido ocupado, entre outras coisas, pela preparação do seu primeiro álbum solo, ainda sem data para sair — com participações de Marisa Monte, João Barone, Seu Jorge, Cibelle e Papatinho (do Cone Crew Diretoria). Jorge Ben Jor, cuja música ‘Jorge da Capadócia’ serviu como oração para Yuka ao levar os tiros, acaba de topar fazer uma participação.

“Eu trabalho durante horas e durmo muito pouco, mas é que é um esforço muito grande para eu ficar focado”, diz Yuka, confessando que a agenda, muitas vezes, o livra da depressão. “Trabalho muito por causa disso e também porque é difícil viver de cultura no Brasil. Imagina sendo um baterista que tem um braço e meio só?”

Além de ir fundo nas aventuras de infância de Yuka, quando morou entre Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Angra dos Reis, e atendeu pelo apelido de Lombriga (“aprendi a me sacanear antes que me sacaneassem, era minha defesa”, diz), ‘Não Se Preocupe Comigo’ vai fundo nas tensões e mágoas que envolveram sua saída do Rappa, pouco após os tiros. Diz ter sido demitido e lembra que na época estava “na cadeira de rodas, chorando, gritando de dor, deprimido. O que aconteceu foi maldade”, escreveu.

“Talvez eu tenha pego pesado em alguns momentos, mas é minha história, tenho que me expor. E tenho o direito de contá-la”, diz o músico. Levinson nem chegou a falar com os ex-colegas de banda do baterista. “Não dá para eu ir pedir autorização para todo mundo que é personagem da vida do Yuka.”

Em meio ao livro, Levinson lidava com o dia a dia de Yuka, sempre acompanhado por enfermeiros — ele tem paralisia nas pernas e movimentos prejudicados no braço esquerdo, e vive numa casa de três andares na Tijuca. “Nunca quis me desfazer da casa, mas minha movimentação fica limitada aqui”, diz o músico, que constrói, com dificuldades, um elevador na residência. “Passei o Carnaval trabalhando. Às vezes, viro a noite no estúdio (que fica em casa) e só vou dormir às duas da tarde.”

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