João Pimentel: Palavrinhas mágicas

A atitude responsável, educada, respeitosa e inteligente deveria ser rotineira. Mas não é

Por O Dia

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Rio - Saio pela Rua das Laranjeiras atrasado e tento pegar um táxi. O horário não ajuda, mas, opa, lá vem um carro vazio. De repente um casal jovenzinho passa por mim, toma a frente, acena e pega a condução. Não tive sequer o reflexo de reagir, de perguntar: “É assim mesmo?”. Decido caminhar até o Largo do Machado. Próximo ao Mercadinho São José, ouço palavrões, tons de vozes agressivas. Um cidadão no fundo de um ônibus berra para o motorista: “Desce que eu te enfio a porrada!” O motorista ameaça descer e, sabe-se lá por que, desiste. Carros buzinam, o trânsito piora e eu sigo meu caminho.

Chegando ao Largo do Machado, em frente à igreja Nossa Sra. da Glória, uma freada, uma batida. E lá vem um motorista do táxi xingando o casal que vinha no carro de trás. O casal mudo, atônito, esperando o taxista se acalmar e este falando as maiores grosserias, sem sequer notar os pedestres que esperavam o sinal fechar e assistiam à cena. Dois policiais em uma viatura estacionada sobre a calçada continuaram onde estavam, mantendo as caras patéticas de paisagem.

Um dia, aliás, menos que isso, uma hora. Esse foi o tempo em que se passaram estas três situações de desrespeito ao próximo, de falta de educação. E, infelizmente, um olhar atento nos permite observar que estes não são fatos isolados. Então me lembrei de minha avó Vera, a gentileza, a delicadeza em pessoa. Era ela quem repetia para mim e para meu irmão: “Não esqueçam as palavrinhas mágicas. Elas abrem as portas do mundo”.

Assim como ela, muitas avós, cada uma de sua maneira, educaram gerações de crianças. Ensinando que se deve agradecer, desculpar, cumprimentar, pedir licença, levantar para uma pessoa de idade sentar. Enfim, noções básicas de civilidade e de respeito que eu me pergunto onde foram parar. Em que momento isso se quebrou?

Recentemente, no final do jogo de basquete em que o Flamengo venceu o surpreendente Mogi das Cruzes, classificando-se para a decisão da liga brasileira, o treinador espanhol Paco Garcia, do Mogi, pediu um tempo técnico apenas para dizer a seus jogadores que estes tinham sido brilhantes, que tinham lutado e chegado longe, mas que não havia mais tempo de mudar o resultado. Ele parou o jogo para dizer a seus jogadores que, por isso, não queria confusão, briga. Eles tinham que encerrar a sua participação com o mesmo brilhantismo demonstrado em quadra, mostrando que sabiam perder.

A atitude responsável, educada, respeitosa e inteligente deveria ser rotineira. Mas não é. Por isso ganha destaque no noticiário. Assim como acontece quando um policial é flagrado ajudando um idoso a atravessar a rua, segurando um pouco o tempo do sinal para uma travessia com a lentidão de quem já correu demais. Mas esta não é, infelizmente, a imagem da nossa polícia. Longe disso.

A educação e o respeito parecem, hoje, fora de moda, perdidos na fumaça dos ônibus, nos engarrafamentos, na estúpida programação das TVs, no corre-corre diário, na banalização da vida. Um amigo resume toda essa neurose urbana em uma palavra: urbanose. Tenho a sensação que perdemos aquele clique, aquela luz que se acende entre o momento, humano claro, do descontrole, da raiva e o do perdão, da clarividência, da lembrança das “palavrinhas mágicas” que abrem as portas do mundo.

Bem, bom dia! Ou seria boa tarde? Desculpe-me, mas não sei em qual parte do dia, amigo leitor, estas mal traçadas linhas estarão sendo acompanhadas. Mas, com licença, o espaço acabou. Muito obrigado.

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