Ricardo Cota: Atrizes brilham em Carol

Escrito obrigatoriamente sob pseudônimo, a obra, de traços autobiográficos, não chegou a ser proibida, mas foi editada por uma coleção de apelo quase pornográfico

Por O Dia

Rio - No mesmo ano de 1952, em que a Associação de Psiquiatras Americanos incluiu a homossexualidade entre as doenças mentais, Patricia Highsmith publicou seu segundo livro, ‘The Price of Salt’. Escrito obrigatoriamente sob pseudônimo, a obra, de traços autobiográficos, não chegou a ser proibida, mas foi editada por uma coleção de apelo quase pornográfico.

Cate Blanchet vive a protagonista de ‘Carol’%2C que estreia hojeDivulgação

O contexto acima dá a dimensão do ambiente em que a trama de ‘Carol’, de Todd Haynes, hoje nos cinemas, se passa. Estamos na América do pós-guerra, em plena era do “baby boom” e da sacralização das normas tradicionais de constituição familiar. Nada muito diferente do espinhoso terreno por onde trafega o marido de ‘Longe do Paraíso’, filme do mesmo Todd Haynes, condenado a esconder suas opções sexuais.

Carol (Cate Blanchet, exuberante) é uma mulher atada a um casamento de fachada, que lhe proporcionou uma filha. Seu marido fecha os olhos para a relação com uma antiga amiga de colégio mas não suporta a aproximação da esposa de Therese (Rooney Mara). O diagnóstico é um só: “doença”. A consequência será uma perseguição desleal do marido que levará o filme a um clímax arrebatador, com direito a poderoso solo de Blanchet.

Se em ‘Longe do Paraíso’ sua inspiração era Douglas Sirk, em ‘Carol’ ele não omite ter bebido na fonte de pelo menos outras três obras de referência: ‘Desencanto’, de David Lean , ‘Um Lugar ao Sol’, de George Stevens, e ‘Louca Escapada’, de Steven Spielberg, que embora seja de 1974, segundo Haynes lhe inspirou no terço final do filme.

A narrativa de ‘Carol’ segue num crescendo habilmente tecido pelo roteiro, de sutil dramaticidade. Não se trata de uma história de amor passional, mas de um romance à moda antiga entre gente moderna. Cate Blanchet empresta uma dignidade impressionante à sua personagem, sempre no limite entre a segurança da opção sexual e o risco da separação filial. Rooney Mara é a coadjuvante à altura, com um toque de Audrey Hepburn em busca da sua princesa encantada.

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