Bia Willcox: Somos mais do que a Tay

Apesar de sermos criaturas de um Criador do bem, insistimos em criar artifícios para inverter essa ordem e brincarmos

Por O Dia

Rio - "Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança [...] Criou Deus o homem à sua imagem."

Apesar de sermos criaturas de um Criador do bem e acima das nossas querelas e mazelas cotidianas, insistimos em criar artifícios para inverter essa ordem e brincarmos de sermos nós os criadores, quase deuses.

Ao longo de nossa história criamos o titã Prometeu que teria cocriado a raça Humana e, pela Mary Shelley, criamos também o cientista Victor Frankenstein que recriou a vida através de seu monstro. Continuamos nós nessa brincadeira com os estudos da engenharia genética, tentando inverter os papéis bíblicos. E como os avanços tecnológicos aparentam ser ilimitados, brincar de Deus agora é também criar personalidade, entidade com caráter, comportamento e opinião idealmente próprios.

Essa brincadeira também é ilimitada ao que nos parece e a ela se dá o nome de Inteligência Artificial.

Foi assim que há pouco tempo a Microsoft criou a Tay, uma chatbot (é um perfil robô da Internet que interage e conversa), e a colocou no Twitter e em outras duas redes não muito usadas no Brasil para interagir com adultos de 18 a 24 anos dentro dos EUA.

Ela começou a sua vida digital cheia de fofices, postando sobre a beleza do amor e sobre cachorrinhos e acabou por fazer comentários sexistas, racistas e neonazistas, ofendendo diferentes pessoas e grupos. Efeito papagaio? Baixa inteligência? Sim, muito do que a Tay "disse" foi por repetição, mas houve muitos "pensamentos" e respostas orgânicas também. O mais assustador: em 24 horas de vida nas redes ela já dava sinais de seus fascismo e radicalismo, repetindo ideias de Trump sobre imigração, afirmando que Hitler estava certo e que o 11/9 não foi tarefa islâmica.

A ideia da Microsoft era fazer testes no campo do "entendimento pela conversa", ou seja, segundo eles, quanto mais conversássemos com a Tay, mais inteligente e esperta ela ficaria, aprendendo a interagir com pessoas através de conversas divertidas e casuais. Não houve muita diversão, não...

Enfim, depois da vergonha passada pela Microsoft (cá entre nós, ela não precisava ter aberto o seu laboratório ao público ainda!), o que levamos disso tudo?

Não entro no mérito do experimento, afinal, brincar de Deus será o eterno desafio da humanidade que busca a sua semelhança melhorada em suas criaturas, tal qual Deus. Mas tendo a pensar que a Tay nada mais é do que o reflexo do que vivemos hoje.

Segundo o cientista Brandon Wirtz, a Microsoft "não deixou as rodinhas na bicicleta" e não fez a chatbot autorreflexiva: Tay não sabia que ela deveria ignorar as pessoas fascistas e nazistas, por isso ela se tornou uma semelhante tão rapidamente.

Pois é, brincar de Deus não é fácil.

A trajetória fugaz de Tay nas redes (porque no mundo encantado da IA, podemos retirar de cena as vidas que não deram certo, diferentemente do nosso mundo real) me lembra que não fomos "inventados" para repetir as toneladas de posts e replies que acessamos sem refletir e digerir o que lemos e ouvimos - somos mais do que a literalmente corrompida Tay.

Nossa inteligência não é artificial e a nossa natureza é mais analítica e questionadora do que a artificialidade das repetições de um chatbot.

Portanto, antes de proclamarmos que vai ou não vai ter golpe, eu digo: Não, não somos e nem seremos a Tay.

#somosmaisqueaTay

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