Bimba: 'A prancha é meu chinelo'

Apaixonado pelo que faz, aos 35 anos, Ricardo Winicki não pensa em parar

Por O Dia

Rio - Ricardo Winicki faz o estilo sossegado e não gosta de exaltar as conquistas, como quatro ouros em Pans e um Mundial no Windsurfe, hoje conhecido como RS:X. Bimba, como é chamado desde a infância, também não muda o tom para falar da medalha que escapou pelas mãos na Olimpíada de Atenas, em 2004. Apaixonado pelo que faz, aos 35 anos, não pensa em parar, sorri quando fala do seu projeto social e só perde o bom humor ao lembrar da Baía de Guanabara: “Se não limparam agora não vão conseguir nunca mais.”

Bimba vai disputar%2C no Rio%2C a sua quinta Olimpíada e ainda faz planos para Tóquio-2020Fred Hoffmann/CBVela

DISPUTAR A OLIMPÍADA EM CASA

“Temos um pouquinho a mais de conhecimento da Baía de Guanabara. Não é uma vantagem enorme, mas é um lugar em que velejo há 20 anos e sempre chega uma regata ou outra que você lembra de algo que já aconteceu em um treinamento ou durante uma competição e consegue aplicar. Isso já aconteceu comigo num Mundial, em Búzios. Estava em 20º na regata e pensei: ‘Não tenho nada a perder, vou tentar uma estratégia que deu certo em outro campeonato.’ Terminei em quarto numa estratégia louca que só eu fiz e passei todo mundo. Espero ter essas pequenas vantagens sobre meus adversários, que são muito fortes.”

QUINTA VEZ

“Dá um nervosismo, mas acho que não mudou muito de Sydney (em 2000) para hoje. Sempre tem o frio na barriga, a tensão que é o que move o atleta. A gente é movido por adrenalina e desafios. Temos a sorte de termos o Pan um ano antes, que nos dá uma boa ideia do que pode acontecer.”

LEMBRANÇAS DO PAN-2007

“O Pan mostrou um pouquinho do que teremos. Na época, eu acabara de chegar como campeão do mundo e a pressão era grande. Foi ótimo competir perto dos amigos. Tenho excelentes lembranças de chegar na Marina da Glória debaixo de chuva e frio e ver todo mundo lá torcendo. Carregaram minha prancha por cima das pedras, parei lá para falar com todo mundo. A entrega de medalha foi superemocionante. Essas lembranças dão uma força extra.”

SONHO COM A MEDALHA

“É o único pódio que falta na minha carreira. Sei que é muito difícil, pois tem pelo menos uns dez atletas com chances reais de medalha. Desses, todos foram campeões do mundo, europeus ou medalhistas olímpicos. Eu estou entre os dez. Tem que ir pouco a pouco. Medalha olímpica já é um sonho, em casa nem se fala e a única da carreira mais ainda.”

APAGÃO EM ATENAS-2004

“O que mais faltou naquela última regata em Atenas foi medo. Entrei com excesso de confiança. Não que eu não devesse ter entrado assim, mas com mais respeito com as possibilidades que poderiam acontecer. O que me tirou aquela medalha foi como jogar duas vezes na loteria e acertar. Para os meus adversários toda a combinação de pontos deram certo e para mim, errado. O momento do aprendizado aconteceu três anos depois, quando fui campeão do mundo. O último dia de regata foi supertenso. Não dormi, não tomei café da manhã, não almocei. Fui competir às seis da tarde com muito medo de repetir Atenas. A adrenalina que me moveu no Campeonato Mundial faltou em Atenas.”

Bimba vem de um tetracampeonato no PanFred Hoffmann/CBVela

RELAÇÃO COM A PRANCHA

“Como tenho um apelido que é Bimba eu digo que é Bimba. Uma das primeiras imagens que tenho sou eu velejando com meu pai. Ele comprou uma prancha para velejar em Santa Cruz de Cabrália (Bahia) onde morávamos e fiquei encantado. Eu o vi velejando e um dia ele resolveu me levar. Desse dia em diante se ele não me levasse eu chorava na praia, ia nadando atrás dele chorando até ele me pegar. Só fui aprender com 11 anos. A partir daí, tudo mudou. Passei a velejar todos os dias da minha vida. A prancha é o meu chinelo."

ROUBADAS

“Teve uma vez que estava treinando em Atlanta. Tinha uns 15 anos. Entrou uma tempestade e fiquei no meio do mar e o socorro demorou. Pensei que fosse ficar ali mesmo (risos). Em aeroportos, eu viajo com quase 150kg de excesso de peso e choro de sair lágrimas para não pagar excesso de peso independentemente de o governo me reembolsar. Sempre luto por isso. Na China, um taxista meteu a mão naquelas grades para pegar na minha perna porque eles nunca tinham visto uma perna peluda (risos).”

DESPOLUIÇÃO DA BAÍA

“Perdemos a chance. É uma tristeza. Acho que esse era o principal legado olímpico. Você deixar um estádio é direcionado a um esporte. O metrô será ótimo para a cidade, mas a Baía limpa seria boa para um país inteiro. Se não limparam agora não vão conseguir nunca mais.”

TÓQUIO-2020

“Penso porque não é um plano de quatro anos, é para dezembro, no primeiro Pré-Olímpico. Ah, vou estar velho em Tóquio? Talvez com 40 anos eu esteja, mas em dezembro não estarei. Se ganhar o Pré-Olímpico, vou fazer 2017 com o apoio do governo. Aí chega 2018, 19, 20... Vou continuar, embora tenha vontade de me aposentar e me dedicar ao meu projeto social em Búzios. Velejar ainda é mais forte.”

PROJETO SOCIAL

“É superinformal e está parado por causa do meu foco na Olimpíada e porque os dois principais garotos que coordenam o projeto comigo são os principais sparrings. Isso também é um prêmio. Colocar o Felipe Beltran como sparring da Patricia Freitas. O Albert Carvalho é meu sparring. Começou ajudando o filho do caseiro do meu vizinho porque o sonho dele era treinar comigo, já que ele só me via treinar sozinho. Dei uma prancha para ele, surgiram outros meninos e fui criando umas regrinhas: tinha que estar na escola, boas notas, ter disciplina. Não tem prancha para todo mundo. Cada uma custa 7 mil euros.”

SACRIFÍCIOS

“Abri mão de muita coisa. Minha família está em Búzios me esperando e estou desde novembro no Rio. Quase não vou em casa. Na terça é aniversário da minha mulher e eu não sei se vou estar com ela, pois não quero perder um dia de treino. Ao mesmo tempo, um cara que treina há 25 anos não pode perder um dia de treino para ficar com a mulher que está há 18 anos?”

IRMÃO-JORNALISTA

“É difícil ele (Flavio Winicki, jornalista da Fox Sports) me entrevistar. Outro dia fiz uma chamada de um programa na Fox e brinquei que roubaria o lugar dele (risos). Ia ser bem legal ele narrando. Seria a realização de um sonho. Talvez a emoção de ganhar na loteria.”

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