Aversão local e crise global

As turbulências na área política amplificaram contra o real o viés de valorização do dólar frente às moedas de países emergentes exportadores de commodities

Por O Dia

À aversão internacional ao risco agregou-se ontem a exacerbação da crise política doméstica, com potenciais efeitos negativos sobre o programa de ajuste da economia comandado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para compor uma conjuntura propícia à armação de posicionamentos defensivos por parte dos investidores. O refúgio, nesses momentos, é aquele de sempre, o dólar.

A moeda americana fechou em alta de 1,29%, cotada a R$ 3,1825. As turbulências na área política amplificaram contra o real o viés de valorização do dólar frente às moedas de países emergentes exportadores de commodities. A moeda americana subiu 0,70% comparativamente ao dólar australiano, 0,98% em relação ao peso chileno e 0,49% ao rand sul-africano. A queda das commodities reflete as apreensões com a desaceleração da economia chinesa.

Os juros refletiram de manhã as incertezas políticas. As taxas subiram acentuadamente porque o cenário sombrio leva as instituições a pedirem mais prêmio para carregar posições prefixadas no mercado futuro de juros da BM&F.

As consequências são nocivas pelos dois lados: o câmbio depreciado aumenta o custo fiscal das operações do Banco Central com swaps cambiais e a nova inclinação da curva futura de juros, resultante da alta dos DIs, contamina as taxas dos títulos públicos negociados no mercado secundário, promovendo deterioração da dívida pública.

À tarde, surgiram novidades tidas como auspiciosas em relação à crise grega e o ambiente ficou menos carregado no pregão da BM&F. Enquanto a taxa para janeiro de 2017 ficou estável em 13,75%, o contrato com vencimento em janeiro de 2021, mais atrelado ao risco global, recuou de 12,66% para 12,63%.

O mercado de juros procurou relevar os eventuais efeitos da disparada do dólar sobre a política monetária e concentrou-se, no pregão vespertino, nos sinais positivos vindos das negociações entre a Comissão Europeia e os dirigentes gregos.

Em princípio, parece não ter desagradado à Troika a proposta do novo ministro das Finanças, Euclid Tsakalotos, de costurar um acordo de transição que permita à Grécia saldar o compromisso de 3,5 bilhões de euros com o BCE que irá vencer no dia 20. Seria uma ponte capaz de suspender o “corralito”, dar alguma normalidade à vida dos gregos, enquanto seria costurado um acordo de mais longo prazo que não representasse uma derrota aos países líderes do bloco, sobretudo a Alemanha, nem uma capitulação do Syriza.

Mas mesmo que, contra todos os prognósticos, a Grécia consiga fechar um acordo que viabilize a sua permanência na eurolândia e mesmo que a China seja capaz de evitar o estouro da bolha de ações, ao qual possivelmente se seguiria o pouso forçado da economia, ainda haveria fartos motivos locais para o desassossego dos investidores.

O mercado financeiro ficou intranquilo com a entrevista da presidente Dilma Rousseff em que declara guerra aberta aos parlamentares, da oposição e da base aliada, que, abandonando a estratégia de fazê-la sangrar até 2018, querem interromper o seu mandato ainda este ano.

Os investidores gostariam que houvesse uma composição entre o governo e os líderes políticos que lhe fazem oposição franca ou dissimuladamente — um arranjo que de fato torna-se mais rápida e eficaz a execução do ajuste fiscal — não uma guerra. A disposição de briga da presidente pode encontrar do outro lado um ímpeto retaliatório capaz de paralisar o governo. A atual crise de governabilidade pode se transformar em crise institucional de consequências imprevisíveis.

Qual será o papel do BC nesse quadro de crise entre os poderes Executivo e Legislativo? Ele tem autoridade para desempenhar as suas funções independentemente do esgarçamento das relações políticas. Mas não tem condições de, sozinho, com suas atuações, restaurar a confiança da população na governabilidade.

Os investimentos e o consumo não voltarão só porque, exercendo o rigor monetário, conseguiu colocar a inflação no centro da meta. Pelo contrário, se o aperto for excessivo aí é que afundará a economia na recessão, afugentando empresários e consumidores.
Não se restitui credibilidade com arrocho monetário. Este tem função coadjuvante e acessória dentro de uma política econômica coerente elaborada pelo Executivo e com total apoio do Legislativo. Não é o caso atual.

Também do ponto de vista da política cambial, a capacidade do BC é menos de resgatar a confiabilidade e mais de evitar danos colaterais. Na hipótese de aumento no fluxo de saída de capitais estrangeiros pode agir por meio da oferta de novos contratos de swap cambial e, no limite, para conter depreciação cambial desestabilizadora, vender dólares das reservas.

O uso do instrumento monetário com a finalidade de conter estragos cambiais tem como efeito indesejado a ampliação da crise recessiva.

Se algum ponto positivo puder ser encontrado no quadro de crise na Europa e na China, ele reside no desabamento dos juros de longo prazo do Tesouro americano. A fuga para a qualidade fez o rendimento da T-Note de 10 anos cair ontem de 2,30% para 2,26%.

Estava em 2,38% na sexta-feira e em 2,42% na quinta. Como o petróleo vem puxando a fila das commodities em queda, a letárgica inflação americana receberá novo sonífero. Tudo conspira para o adiamento do início do aperto monetário americano para o ano que vem.

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