Garotada abre o verbo contra violência dos pais

Projeto com meninos e meninas da Maré resulta em livro que critica de maneira divertida a educação baseada em tapas e palmadas

Por O Dia

Era uma vez um garoto chamado Lucas que gostava de sentir o vento no rosto, se arriscando em saltos do alto de uma cachoeira. Em casa, a mãe batia nele. Mas Lucas voltava a dar seus pulos na água. Até que seus pais tiveram a ideia de construir um balanço no quintal para que Lucas pudesse sentir o vento no rosto. A história simples virou livro nas mãos de 12 meninos e meninas, com idades entre 4 e 13 anos, moradores do Complexo da Maré.

A obra ‘Vento no Rosto’ é um livro infantil dedicado a adultos, incluindo pais, mães e cuidadores de crianças, que só sabem educar na base de palmadas, tapas, beliscões, chineladas e paulada. A publicação aborda de maneira divertida, com uma linguagem simples, questões como obediência, punição, deveres, direitos e obrigações de cada membro da família, e o diálogo entre eles.

Orgulhosas%2C as crianças mostram o livro ‘Vento no Rosto’%2C feito por elas%2C a partir de um projeto mantido por uma ONG no Complexo da Maré Divulgação

A psicóloga Vanessa Fonseca, coordenadora de programas da ONG Instituto Promundo, que desenvolve o projeto em parceria com a Save the Children, explica que a proposta é dar voz às crianças. Saber como elas acham que poderiam ser educadas, sem o uso de castigos físicos e humilhantes.

“Dar limites é importante. Mas as famílias precisam aprender a respeitar a criança e educar na base da conversa. O resultado é sempre muito melhor”, ensina Vanessa. Uma das alternativas é proibir a criança de ver televisão ou jogar no computador. “Deixar ele quieto num canto pensando no que fez de errado também funciona”, orienta.

Desde 2005, o Instituto Promundo, cofundador da Rede Não Bata, Eduque, tem buscado estratégias para refletir com responsáveis sobre os direitos das crianças, incluindo a liberdade de opiniões sobre questões que afetam suas vidas. Pesquisa do Promundo observou que as mães são as que mais batem. “A educação pela violência é cultural e muito comum tanto em países ricos quanto pobres”, constata Vanessa.

Mais de 120 mil casos de maus-tratos a cada ano no país

Nos próximos 60 minutos, 15 crianças serão agredidas por um adulto. Por mês, são 10.940 ocorrências contra menores, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. No ano passado, a violência atingiu 120 mil casos.

Números mostram que 77% das denúncias feitas ao Disque 100, entre janeiro e novembro de 2012, foram relativas à violência contra crianças e adolescentes, o que corresponde a 120.344 casos relatados no Brasil.

Livro como o que acabou de ser inventado pelas crianças da Maré podem ajudar a reverter essa triste estatística. A publicação pode ser encontrada no site www.promundo.org.br.

Os efeitos das agressões

>Agressões contra crianças e adolescentes têm uma série de consequências, como comprometer a autoestima.

>Elas também interferem na aprendizagem e no desenvolvimento da inteligência.

>Passam ainda a mensagem de que a violência é o único modo de resolver problemas e conflitos.

>Faz com que as crianças e adolescentes sintam raiva e tenham vontade de fugir de casa.

>Com agressões frequentes, as crianças aprendem a se sentir vítimas. A tendência é que este sentimento se torne padrão nas relações com as pessoas.

>Causam solidão, tristeza e abandono.

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