Milton Cunha: Festa no profundo das águas

Enrolado em meu lençol de chita, era mais rico que todo mundo, porque eu partia dali para as terras da encantaria

Por O Dia

Rio - Foi Mary Debs quem trouxe o redondo e prateado feitiço. Deixou na portaria, e eu o apanhei, talvez já encantado, sem sabê-lo. Coloquei para rodar e fui me vestir na saleta dos guarda-roupas. Quando chegou a música 8, os acordes magníficos subiram e encheram soberanos meu coração, e ouvi naquele vestíbulo de Copacabana o som do remo de meu batelã-criança, a rasgar as águas dos igarapés de minha Peixe-Boi, querida. Betânia cantava suave, sua vitória sobre o corre-corre do meu dia a dia, quando não dá tempo de eu ir aos meus quintais. Parei de botar a calça e virei a estátua do menino tapuia sonhador e arrojado que fui e sou. Maria em voz, emitia um amálgama sobre Yara, aquela que conheço tão bem. O chão se abriu já virado curso de rio, e a vi emergir belíssima das ondinhas brilhantes. Os mururés balançavam no espelho que reflete o sol, e eu os acho misteriosos porque sua longa e fina raiz vai se atracar no fundo escuro dos rios e de minha alma também. Achei que estava tendo uma ilusão, mas já não adiantava fugir, as paredes de minha tapera subiram, com aqueles buracos por entre os cipós amarrados e o barro seco, onde se escondem os terríveis escorpiões e barbeiros. Corpo na Zona Sul carioca, espírito curumim na dobra do rio calmo, ao entardecer, ouvindo pios de vários bichos, que rastejam e voam. Sozinho com minha correnteza de lágrimas, emocionadas pelo reencontro súbito com eu menino.

Naquele tempo, eu atava minha rede por entre a teia de tantas redes, de todos nós nos anos idos. E me deitava olhando os troncos e telhas no telhado frágil, que me separava da deslumbrante noite amazônica, só minha. Eu torcia para chover porque, por entre as frestas do teto, escapavam gotículas que faziam no ar a fina cascatinha que trazia a sensação da morada da Mãe d’água, assim respeitosamente denominada no interior do Pará. Enrolado em meu lençol de chita pobrinha, eu era mais rico que todo mundo, porque eu partia dali para as terras da encantaria. Os versos de Yara Calcanhotto me varam, soberbos: “É preciso manter a proa, da margem que encerra, se ele é livre, ou se é dela...”. Sou delas, de três Yaras que se juntam em obra prima: Beta, Adriana e Clarice Lispector, admiráveis mulheres a quem um só noivo não basta!

Os moços bonitos, caboclos que tinham desaparecido, levados pela imensidão das águas e pelo canto da índia morena, mulher e peixe ao mesmo tempo, sempre me fascinaram porque a ela não bastava casamento normal, eu a admirava porque, rodeada de namorados, ela representava liberdade para todas as mulheres que eu via, tão submissas a seus homens de várias amantes consentidas. Antes de tudo, era possível viver num mundo de mulheres de lindeza na voz, no véu, e confiantes no seu encanto úmido

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