Ricardo Cravo Albim: UFRJ homenageia Caymmi

Um dos maiores nomes da MPB está sendo celebrado desde abril por um país que clama por mais respeito à memória

Por O Dia

Rio - A Universidade Federal do Rio de Janeiro, nossa UFRJ, vem cumprindo neste 2014 um projeto cultural do qual eu diria original, saudável e, sobretudo, emocionante. Através de seu prestigiado Departamento de Artes (leia-se professora Flora de Paoli), debruça-se sobre datas fundamentais de nomes da MPB, referenciando-os com palestras acadêmicas, onde são ouvidos fragmentos da obra musical de cada um. Há dias foi a vez do centenário de Dorival Caymmi, quando Stella Caymmi, sua neta e biógrafa, produziu recital único, porque não só fez conferência (ela ostenta Doutorado em Letras), como também cantou (aliás, uma revelação de cantora). A filha de Nana representou, para um público de professores de todos os departamentos da UFRJ, a homenagem do saber do Brasil a um artista baiano igualmente sábio, e ainda por cima genial.

Conheci Caymmi muito bem e até hoje guardo no coração nossas espichadas conversas telefônicas: sua voz calma e ondulante emoldurava frases delicadas e elegantes, quase sempre desaguando em considerações convenientes e persuasivas. Era um prazer a simples perspectiva de iniciar uma conversa com ele, até pela fina educação de seu comportamento, evocando aos meus ouvidos fidalguia e nobreza.

Caymmi — eu o chamava de “meu Caymmi”, possessivo carinhoso que o deleitava — é autor de obra singularíssima, diminuta em volume e grandiosa em qualidade. Ou seja, a proclamada (e injusta) preguiça que alguns desprevenidos costumam lhe pespegar não é senão a busca da perfeição, do arredondamento das ideias, da certeza do eterno.

Nosso ‘Soba baiano’ modelou em cada canção um retrato da vida, vida pulsante dos dengos da Bahia, de sua paisagem física e humana, dos tipos populares. E, sobretudo do mar. Que ele cantou numa coleção que, acredito, não tenha paralelo em nenhum lugar do mundo.

Dorival Caymmi está sendo celebrado desde abril por um país que clama sempre por mais respeito à memória, por mais robustez em consagrar aquele Brasil dos brasileiros que efetivamente valem a pena.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

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