Júlio Furtado: Dever de casa

Parece que o dever de casa é da família toda, e não só do aluno

Por O Dia

Rio - Enquanto aguardava na fila de um caixa eletrônico dia desses, ouvi a conversa de duas mulheres que estavam logo atrás: “Vim correndo pegar o dinheiro pra pagar à faxineira. Fico presa a tarde inteira sem poder sair, pois minha filha tem dever de casa todo dia”. Parece que o dever de casa é da família toda, e não só do aluno.

Na essência, o papel do dever de casa é verificar se o aluno realmente aprendeu o conteúdo. Dessa forma, é tarefa do ‘aluno’ e não do ‘filho’. Acho importante fazermos essa distinção. Diante desse contexto, o papel dos pais é proporcionar condições para que o aluno execute a tarefa da melhor forma possível. Cabe ajudar a desenvolver uma rotina, providenciar um local tranquilo, arejado e iluminado e até mesmo supervisionar se a tarefa foi cumprida, pedindo para ver a atividade pronta ao fim. Ensinar o dever de casa não faz sentido, além de que não é tarefa dos pais. Caso a criança ou adolescente sinta dificuldade e erre ao fazê-lo, é sinal de que não aprendeu como deveria, e a escola precisa ficar sabendo disso para tomar providências. Caso os pais ensinem ou (por incrível que pareça) façam pelo aluno, o papel do dever de casa estará sendo distorcido.

Em conversa com alguns pais, percebo que ensinam ou fazem as tarefas pelos filhos porque se sentem fracassados, caso o filho erre ou leve a atividade sem fazer. Ao agirem assim, além de tirar da escola a possibilidade de avaliar se o aluno aprendeu, não desenvolvem em seus filhos a autorregulação, que é a capacidade de se autoadministrar para cumprir seus deveres e aprender com os erros. Cenas bastante frequentes nas escolas são mães chegando esbaforidas trazendo o caderno que o filho esqueceu em casa.

Ao esquecer um livro, a criança precisa sentir as consequências para que não esqueça seu material outras vezes.

Pare de ligar para outras mães perguntando se há dever de casa porque seu filho não sabe informar. Pare de arrumar o material na mochila todo dia. Deixe-o assumir as consequências enquanto aluno. Acompanhe-o de perto, mas não esqueça de que ele precisa cair pra aprender a se levantar.

Júlio Furtado é professor e escritor

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