Júlio Furtado: Ensinar limites às crianças é fundamental

Não aprender limites na infância gera falta de persistência e necessidade de manipular para obter o que se quer na vida adulta

Por O Dia

Rio - Estava ministrando uma palestra para pais em uma escola privada quando, atrasada, uma mãe entrou no auditório, esbaforida, quebrando o grande silêncio e a enorme atenção da plateia. “Nossa, o trânsito está horrível!” Começou a dar adeusinhos para outras mães e sentou-se na primeira fileira, colocando uma bolsa na cadeira da direita e seu casaco na da esquerda, gritando: “Não sei onde estava com a cabeça ao trazer esse casaco!”. Como se não bastasse, puxou outra cadeira para colocar os pés. Após alguns cochichos e pequena agitação, o público voltou ao silêncio e à atenção ao que eu estava falando.

Três outros pais chegaram atrasados, e os únicos lugares vazios eram o da bolsa, o do casaco e o dos pés da espaçosa mãe. Ao perceber isso, falei, ao microfone, para o trio, que já estava em pé, que havia três lugares na frente. Precisei lembrar à mãe que os lugares eram as cadeiras extras que ela ocupava.

A palestra era sobre como ensinar limites aos nossos filhos e, por alguns instantes, pensei em como aquela senhora faria isso se ‘limite’ parecia ser uma palavra que ela não conhecia.
Limites são necessários para que possamos viver civilizadamente em sociedade. Precisamos ter consciência dos nossos espaços e dos nossos direitos para não invadir os dos outros e nos tornar pessoas, como dizem, ‘sem noção’. A criança precisa de limites para que se desenvolva saudavelmente.

De início, ela precisa descobrir que o mundo não lhe pertence e, para isso, deve saber esperar sua vez e não pegar o que não lhe pertence. Outra função essencial dos limites na infância é dar segurança. Se a criança sente que ela pode fazer tudo o que quer, ela se sente a pessoa mais poderosa da casa e desenvolve pensamentos do tipo: “Se sou a pessoa mais poderosa aqui, quem vai me salvar se eu estiver em perigo?” É fundamental a criança sentir que os pais são mais poderosos para se sentir segura.

Não aprender limites na infância gera falta de persistência e necessidade de manipular para obter o que se quer na vida adulta. Gera, também, a falta de consciência e sensibilidade. Graças à noção de limites, aprendemos que só temos direito a uma cadeira e sermos discretos ao chegar atrasado.

Júlio Furtado é professor e escritor

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