Nelson Vasconcelos: 50 tons de mulatos

Calar os outros é muito perigoso porque, no fim das contas, os pensamentos abafados começam a se acumular nas cabeças

Por O Dia

Rio - Lá nos anos 80, a rapaziada da Glória sempre comentava sobre uma certa Mulatinha. “Cadê a Mulatinha?” ou “A Mulatinha te mandou um beijo”, coisas assim. Quem era a tal? Ninguém. Era só uma brincadeira boba da galera. Nem sei se a turma da Glória ainda fala isso. Daí que, surpreso, descubro no Facebook (onde mais?) que não devemos mais chamar ninguém de mulato (ou mulata, claro). Afinal, a origem dessa palavra tem a ver com mula, jumento, o que não é exatamente um elogio a ninguém. Corro ao dicionário. Pior que é verdade.

Mas, peraí, tem mais do que isso. Vejo que a palavra mulato tem a ver também com mestiçagem, “que ou aquele que não apresenta traços raciais definidos”, segundo o Houaiss. Logo me veio a ideia de que essa característica define bem a “raça brasileira” (com muitas aspas). De que “cor” (mais aspas) são os cariocas da gema?

Entendo essa intenção de evitar que palavras agridam minorias (mesmo que não sejam numericamente minorias). Racismo jamais, em qualquer idioma, e estamos conversados. Isso não se discute. Mas me preocupa quando não se percebe que a onda politicamente correta está longe de ser plural, inclusiva, aberta.

Do ponto de vista da linguagem, por exemplo, ela segrega. Uma de suas vertentes coíbe a liberdade de expressão – que, quando usada com intenção de machucar, tem como ser legal e legitimamente punida. O que digo é que, mesmo cheios de boas intenções, talvez estejamos abusando dessa tentativa de coerção da linguagem. Mal empregada, a onda politicamente correta vai cercear a liberdade de pensamento alheia restringindo, ou cortando totalmente, o uso das palavras. Cria-se um índex para a nossa nova idade média.

Palavras são vivas, a gente sabe, e morrem por si – não por decreto. O negócio é dialogar, não silenciar. Calar os outros é muito perigoso porque, no fim das contas, os pensamentos abafados começam a se acumular nas cabeças. E aí, qualquer hora dessas, essa lama de ideias reprimidas vai vazar pra todo lado, arrebentando o que estiver pela frente. A história já mostrou que isso não dá nada certo.

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