João Tancredo e Maria Isabel Tancredo: Ouro em legado fantasioso

Passamos por um momento de profunda crise no estado e, mesmo assim, receberemos uma máquina de sugar recursos

Por O Dia

Em julho, pesquisa Datafolha que informava que metade dos brasileiros era contra a realização da Olimpíada no Rio. Entre os cariocas, 47% acreditam que o evento traria mais prejuízos do que benefícios. A poucos dias da abertura, as cifras exorbitantes do evento incomodam muitos cidadãos que sofrem num estado falido.

Os recursos empregados em obras faraônicas realizadas sob o argumento do ‘legado’ contrastam com a falta de investimento em saúde, habitação e educação. Viadutos, BRT e VLT, entre outros, contabilizam fortunas em instalações planejadas às pressas e sem priorizar a população. Pior, todo esse investimento público passará à iniciativa privada. Passados os Jogos, o asfalto mal colocado, a obra inacabada e a falta de investimento são as heranças de um povo já violentado.

Nesse caminho, os problemas com as delegações vergonhosos, mas servem para demonstrar a má administração a que a população está exposta. Se na Vila Olímpica há atletas indignados (e com razão) quanto à péssima qualidade das instalações, é ainda mais grave o que acontece nas escolas e hospitais no Rio.

Passamos por um momento de profunda crise no estado e, mesmo assim, receberemos uma máquina de sugar recursos públicos que, além de só trazer retorno para poucos, também impulsiona uma série de opressões do governo justificadas pelo grande evento. Nesse sentido é emblemático o vídeo veiculado nas redes sociais, intitulado ‘O Rio a seus pés’, em que o prefeito da cidade diz: “Esse negócio de Olimpíada é sensacional para se usar de desculpa para tudo.”

Uma das comunidades atingidas pelo alto número de remoções que passaram a acontecer mais intensamente no Rio é a Vila Autódromo. Os moradores são ameaçados desde os anos 1990 e sempre resistiram bravamente; porém, com a chegada dos Jogos e das “sensacionais desculpas” do prefeito, as casas localizadas entre a Lagoa de Jacarepaguá e o Parque Olímpico se tornaram um cenário de pós-guerra. É a vida dando lugar a escombros em nome das Olimpíadas e de um novo projeto de cidade.

João Tancredo é advogado; Maria Isabel Tancredo é acadêmica em Direito

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