Absolvido de acusação, pai não consegue ver a filha há sete anos

Psicólogo Gilberto da Silva Fernandes diz que errou ao juntar parte de seu 'relatório modelo' a um laudo que verificou o suposto abuso sexual de uma menina

Por O Dia

Rio - Rosa completou nesta terça-feira dez anos. Há sete não tem a companhia do pai, Francisco (nomes são fíctícios) e sequer pode receber uma mensagem ou telefonema dele na comemoração de seu aniversário.

“Acredito que ela nem saiba mais quem eu sou”, conta. Os dois não se encontram desde que Francisco foi acusado por Jane, sua ex-mulher, de abusar da filha quando a menina tinha apenas 3 anos. Apesar de ter sido absolvido da acusação e do laudo do IML concluir que não havia indícios de violência sexual, ele e sua família estão sendo ‘punidos’ até hoje: continuam impedidos de conviver com a criança.

O caso foi citado como um dos cinco processos localizados pelo DIA na série ‘Crimes Invisíveis’, iniciada domingo e que encerra hoje sobre as falhas nos laudos emitidos por psicólogos da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav). Com medo de represálias da ex-mulher, Francisco havia optado pelo silêncio. Mas, ao reconhecer sua dor na de outras famílias, decidiu falar.

Francisco e toda a sua família foi punida%2C apesar de exame no IML indicar resultado negativo ao abuso denunciadoMaíra Coelho / Agência O Dia

Ele diz que o relacionamento de três anos dos dois terminou devido à dificuldade de convívio. No fim do casamento em 2007, os dois nem conseguiram conversar para definir a guarda e a pensão da filha. As questões foram todas levadas ao Judiciário.

Ficou estabelecido que Rosa ia morar com a mãe, mas veria ao pai duas vezes por semana e em fins de semana alternados. A avó paterna, Sandra, passou a ter papel fundamental. “Por causa dos problemas, era a minha mãe que buscava e entregava a Rosa na casa da minha ex-mulher. Voltei a ter contato só quando o processo começou”, explica.

LEIA MAIS: Homem é preso e torturado após falhas em laudos psicológicos

Portadora de esclerose múltipla, Sandra tinha na neta um motivo para enfrentar o tratamento que tenta controlar a doença.“Rosa era a minha razão de viver”, desabafa. Da menina, restam em sua casa alguns brinquedos e uma gravação no celular. “Quero brincar com o Ben 10”, diz Rosa, no aúdio que Sandra guarda como uma joia.

‘Ben 10’ é o passarinho que os avós compraram para a neta e que ela não conheceu devido à acusação de abuso que, mais que afastá-la do pai, interrompeu o convívio com a avó. Sandra conta que no início a avó materna e a mãe pediam que ela ficasse com a menina no horário de trabalho das duas. Sandra diz que as coisas funcionaram relativamente bem até agosto de 2008. “Uma tarde ela me disse que queria vir morar comigo e o pai. Passaram a não deixar a Rosa vir aqui e a avó materna viajou com ela.”

Francisco diz que as viagens passaram a demorar até mais de 15 dias. “Liguei para eles e falei que ia ver a minha filha e a avó materna disse ‘você não sabe o que está te esperando.”

LEIA MAIS: Investigações sobre abuso sexual infantil separam pais e filhos

A denúncia de abuso só chegou ao seu conhecimento um mês depois quando, ao voltar do trabalho à noite, encontrou dois policiais da Dcav na porta de casa. Nessa época, a filha já tinha sido atendida pelo inspetor e psicólogo da Dcav Emerson Brant que concluiu que a menina teria sido vítima de abuso. A mãe alegava que tinha notado assaduras esquisitas e que a filha falou que o pai colocou o dedo em sua genitália. O exame do Instituto Medico Legal foi negativo para qualquer sinal de violência sexual.

O psicólogo Gilberto Fernandes diz que errou ao juntar parte de seu “relatório modelo” a um laudo que verificou o suposto abuso sexualReprodução

O Ministério Público ofereceu denúncia contra Francisco. A questão chegou também ao processo de guarda e fez com que a Justiça afastasse o pai da filha. O laudo psicológico da Dcav foi levado em mãos pelos avós maternos até a psicóloga que atendia o caso no processo de guarda na Vara de Família de Madureira. “O laudo foi trazido pela avó materna. A psicóloga até recusou dizendo que ia aguardar a comunicação oficial”, diz.

No laudo feito pelo núcleo do Fórum de Madureira, além de Rosa todas as pessoas próximas à menina foram ouvidas: pais e os quatro avós. O resultado foi inconclusivo para o abuso, mas foi identificada a resistência da mãe no convívio da filha e com o pai e sua família.

LEIA MAIS: Acusados precisam ser ouvidos na produção dos laudos

Além da contradição nos laudos, chamou atenção o fato de Francisco ser acusado de abusar da filha em momentos nos quais estava no trabalho, conforme ficou demonstrado pelo registro de ponto da empresa onde trabalhava.

Ao absolver Francisco no ano passado, a juíza Ana Paula de Freitas assinalou que “o laudo oriundo da revelação do suposto abuso” feito na Dcav deveria ser visto com ressalvas pela análise superficial dos fatos. Na Vara de Família, no entanto, ele ainda não conseguiu regulamentar seu direito de visita. “Estou na expectativa de quando ela vai conhecer a irmã”, desabafa.

Laudos modelo

Os problemas apontados pelo DIA durante a série de reportagens revoltaram Antonio. Ele conta que também enfrentou uma acusação de abuso em 2007 durante o processo de discussão de guarda da filha após a separação.

Em meio ao lítigio, a ex-mulher registrou uma ocorrência na Dcav e a filha foi atendida pelo inspetor e psicólogo Gilberto Fernandes da Silva que confirmou em seu parecer a “existência de fortes indícios” do crime.

Não demorou muito para que o laudo chegasse ao processo de guarda e para que as contradições fossem apontadas. Entre elas, o fato de que na última folha do documento, onde o perito apresenta a conclusão, a data era 2005 dois anos antes da entrevista.

Além disso, o nome da criança não é mencionado e sua idade está errada. Questionado pela juíza da Vara de Família , o psicólogo informou que ocorreu um erro na hora de reunir as páginas do laudo e ele juntou uma das folhas de seu “relatório modelo”.

Mais tarde, a acusação foi desfeita porque a própria mãe confessou em juízo que inventou a história e foi pedida a abertura de um processo por falsa denúncia contra ela.

“Sou médico e fico imaginando se algum paciente soubesse . Quem teria confiança em mim?”, questiona. A guarda da menina ficou com a mãe e o pai ganhou direito à visita. O inquérito nunca foi concluído. A advogada do caso Alexandra Ulmann que atua na área há 10 anos diz que falta qualificação nos laudos.

“Eles são usados como armas no processo porque o juiz parte do pressuposto que o profissional é sério . Mas muitas vezes falta conhecimento a esses psicólogos”, afirma.

Ela lançará na próxima semana o livro ‘Tudo em dobro ou pela metade’. A obra retrata a visão das crianças durante a separação dos pais. Procurada, a Polícia Civil informou que o psicólogo Gilberto Fernandes da Silva trabalha como inspetor e não atua mais na Dcav.

Últimas de Rio De Janeiro