Festa angolana com kuduro, moda e futebol em diversos pontos do Rio

Dia será de festividades gratuitas por toda a cidade em festa nacional para imigrantes que fugiram da guerra civil

Por O Dia

Rio - O português, o samba, ou melhor semba, e o amor pelo futebol. Esses são elementos culturais que ligam cariocas e os mais de 3.500 angolanos que residem no Rio, e que farão parte da festa nacional desses imigrantes, que fugiram de uma longa guerra civil — iniciada após a independência do país e durou 27 anos, deslocando cerca de 4 milhões de pessoas.

Para celebrar a data, o Consulado de Angola promove neste sábado, ao lado das comunidades do Complexo da Maré, da Baixada Fluminense e parte da Zona Norte —, um dia de festividades gratuitas em diversos pontos da cidade.

No Complexo da Maré, haverá a principal confraternização com torneio de futebol, a partir das 12h, na Vila do João. Além de comidas típicas angolanas, à base de mandioca, e apresentação de ritmos como kuduro, semba e kizomba, na Adega do Angolano.

À direita%2C o estilista Fabrício Dom com os modelos angolanos e brasileiros que irão compor a estreia da coleção Face to Face%2C no Clube IrajáBruno de Lima / Agência O Dia

Muito relacionado ao samba, o semba conquistou os jovens de Angola e agora mostra sua cara no Brasil. “Vamos comemorar a paz e nossa união. A Maré foi um grande abrigo para milhares de angolanos. Foi um lugar mais barato e acessível. Muitos fizeram sua vida aqui”, conta Antonio Agostinho, ex-professor em Angola e organizador do evento.

“Mesmo com os problemas que enfrentamos de violência, para mim por exemplo, foi uma solução. Quando você imigra, não pensa no que vai encontrar pela frente, você só quer fugir, viver e ter dignidade”, revela Agostinho.

Treze anos após a assinatura do memorando que pôs fim ao conflito, no dia 4 de abril, a data ainda representa motivo de festa tanto para quem ainda vive em Angola, quanto para quem não voltou mais.

“Angola viveu muito tempo de guerra, então, quando chega o dia 4, queremos festejar de qualquer forma, talvez muito mais para nós que vivemos fora, afastados de nosso país. Somente quem viveu os horrores de uma guerra sabe o quanto é fundamental valorizar a paz”, explica o cônsul geral de Angola, Rosário de Ceita.

Agostinho auxilia no projeto que regularizou a situação de quase dois mil angolanos que viviam ilegalmente no país. “Muitas pessoas não conseguiam emprego, então trabalhamos para dar identidade a essas pessoas, para que enfim tivessem acesso a todos os seus direitos”, afirma.

Além das festividades, a moda angolana também será apresentada pelas mãos do estilista e artista plástico Fabrício Dom. O desfile que acontece hoje, às 18h, no Clube Irajá, estreará sua coleção Face to Face, que abusa de estampas de animais e tecidos trazidos diretamente do país africano.

“Aqui no Brasil, percebo que tanto o Rio quanto a Bahia valorizam muito a cultura, assim foi um bom lugar para apresentar meu trabalho. Nessa coleção valorizo as estampas de animais, uma vez que eles sempre contribuíram para nossas roupas, desde o começo do mundo”, explica.


Rosário de Ceita Cônsul Geral de Angola: 'Se conhece pouco nossa cultura'

Neste sábado, a imigração de angolanos para o Brasil tem um motivo bastante diferente dos antigos refugiados de guerra. Milhares de estudantes chegam ao país para fazer cursos de graduação, por meio de incentivos do governo angolano e parcerias com o Ministério da Educação. O caminho inverso, de brasileiros indo para Angola também cresceu, segundo o cônsul angolano.

1. Qual a importância dessa celebração de paz?

Historiadores afirmam que a maior parte dos escravos vindos de Angola desembarcou no Rio.Há mais de 20 anos, a imigração angolana é forte no país, e ainda assim, se conhece muito pouco de nossa cultura. Assim, queremos apresentá-la.

2. O perfil desse imigrante mudou?

Com o fim do conflito, notamos que começou a haver um movimento de regresso. Hoje, a maioria dos angolanos que vem para o Brasil são estudantes, por meio de incentivos do governo.Somente no Rio de Janeiro são cerca de mil universitários.

3. Esses incentivos se estendem ao mercado de trabalho?

É nossa tarefa promover, com apoio de outras instituições, a formação profissional. Não só para que eles possam ser inseridas no mercado de trabalho daqui, quanto regressar com o conhecimento para Angola. O acompanhamento é feito e divulgado pela comunição institucional do consulado.

Reportagem de Natália Figueiredo

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