Crise expõe disputa entre Uerj e CAp

Universidade e direção do colégio têm visões diferentes sobre o perfil da unidade de aplicação. Aulas para o Ensino Médio voltam nesta quinta-feira

Por O Dia

Rio - A falta de professores para iniciar o ano letivo de 2015 no Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio (CAp-Uerj) mais do que um problema antigo também evidencia o pico de uma disputa entre os docentes da unidade e a reitoria da universidade pelo perfil da escola. O CAp tem 1,1 mil alunos do Ensino Fundamental e Médio, mas também faz parte da formação curricular de cerca de 600 alunos de cursos de licenciatura da Uerj. Por isso, além da carga horária de sala de aula, os professores precisam realizar atividades de pesquisa e extensão — como ocorre nos outros departamentos da universidade.

Porém, desde 10 de novembro de 2014, quando o reitor, Ricardo Vieralves de Castro, baixou a portaria 420, os educadores da unidade só podem dar aulas na graduação universitária quando cumprirem toda a carga horária do ensino básico no colégio. Como faltam professores para completar o ensino básico atualmente, mesmo os docentes que poderiam estar em sala de aula dividindo seus horários também com a graduação estão impedidos de dar aulas a cerca de 600 alunos da Uerj.

Para a reitor da Uerj%2C prioridade do CAp deve ser com alunos do colégio e não com formação de docentesUanderson Fernandes / Agência O Dia

Até o momento, a escola retomou as aulas no Ensino Médio e no primeiro segmento do Fundamental (1º ao 5º ano). O segundo segmento (6º ao 9º ano) tem previsão de retorno para quinta-feira. Segundo a direção, isso ocorrerá por determinação da Reitoria apesar de 30 professores aprovados em concursos ainda não terem sido admitidos.

Entender a matemática da divisão de horários do CAp não é tarefa simples. Os docentes efetivos de dedicação exclusiva, com carga horária de 40 horas semanais, precisam cumprir ao menos dez horas em sala de aula e o restante nas outras atividades. Com base nessa diretriz, a direção do CAP diz que faltam professores para 1.022 horas de aula. Na última semana, porém, eles se viram confrontados tanto pelo governo do estado como pela reitoria com a informação de que o número de professores existentes era suficiente para a retomada das aulas. Para os pais e docentes do CAp, a reitoria quer mudar o perfil da unidade retirando o trabalho de pesquisa e extensão.

“Isso descaracteriza totalmente o que a escola é. Entendemos que damos aula para educação básica e a graduação. Mais uma vez eu não fui informado oficialmente por nenhum órgão sobre esse cruzamento e essas informações. Penso que todas as vezes que a gente tenta descaracterizar uma instituição de 58 anos que tem uma função social definida a gente está prejudicando a população como um todo”, afirma Lincoln Tavares, diretor do CAp.

O CAp tem 1.100 alunos e faz parte da formação curricular de 600 estudantes de licenciaturas da UerjUanderson Fernandes / Agência O Dia

Valéria Calmon, mãe de um estudante do 6º ano do Ensino Fundamental, disse que, desde o ano passado, um grupo de pais de alunos tem se reunido com a direção da escola para acompanhar as dificuldades da unidade. Ela ratifica os dados apresentados pela direção. “Nós também nos debruçamos sobre os documentos. O diretor abriu os arquivos para gente. Pedimos licença para participar do colegiado de professores e entendemos a situação. Essa portaria complica mais o CAp e desconhecemos essa quantidade de professores que supriu o déficit. O buraco permanece”, questiona.


Foco em formação de professores estaria mudando

Em uma reunião com pais da escola em outubro de 2014, o reitor disse que a principal função do CAp-Uerj não é mais a formação de professores. “Nosso compromisso maior com o Colégio de Aplicação não é com a formação de professores. Nosso compromisso maior com a educação do CAp é com vocês pais e filhos”, disse o reitor, na gravação a que O DIA teve acesso. Na ocasião, ele ainda informou que alguns institutos da Uerj não queriam mais que os alunos fizessem formação de docente no CAp.

Ao falar sobre as reclamações em torno de concursos abertos para professores com carga horária de apenas 20 horas e sem dedicação exclusiva, o reitor disse o diretor do CAp estaria fazendo “pirraça”. “Vai fazer pirraça em outro lugar... estou falando com gente adulta. Para com isso. Amadurece. Quis ser diretor, para com isso. Cresça”, criticou o reitor.

A direção do CAp disse que nunca foi informada pelos institutos pelo fim das aulas e práticas de formação na escola. Procurada, a Reitoria da Uerj mais uma vez não se manifestou.

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