Irimar de Paula Posso: Quando a burocracia dificulta o tratamento

Um terço da população mundial sofre de dor crônica, uma das principais causas da redução de produtividade e qualidade de vida

Por O Dia

Rio - Um terço da população mundial. É esta a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o número de pacientes com dor crônica, uma das principais causas da redução de produtividade e qualidade de vida. No Brasil, os índices de prevalência do problema também são altos: até 40% da população sofrendo de dor. Consensos internacionais indicam que o tratamento deve ser feito com opioides, mas, no Brasil, e aí que começam as dificuldades: os impasses burocráticos do nosso país atrapalham o gerenciamento da dor, e quem sofre as consequências é o paciente.

A taxa brasileira de prescrição de opioide é uma das menores do mundo. Enquanto levantamentos internacionais apontam que a taxa ideal seria de 192,9 mg ao ano por pessoa, no Brasil temos apenas 7,8 mg. Esse cenário evidencia o subtratamento, questão que é fruto da falta de entendimento da população e de atenção do poder público.

O paciente em tratamento com este tipo de medicamento, muitas vezes, acaba desenvolvendo tolerância, ou seja, o opioide deixa de ter o mesmo efeito, e ele volta a sentir dor extrema. Quando isso ocorre, o médico deve aumentar a dose ou alterar o tipo de medicação para que o alívio da dor seja alcançado. O sistema público de saúde no Brasil prevê apenas três medicamentos na lista de diretrizes de tratamento, e isso é extremamente preocupante. Cada paciente é um paciente que reage de formas diferentes, por isso seria fundamental ampliar este protocolo.

A consequência de barreiras burocráticas são os milhares de pacientes que estão sentindo dor sem necessidade. Se o protocolo fosse revisto (e está aberta enquete para a discussão), ampliando a lista de medicamentos do SUS para dor crônica, a Saúde avançaria em passos largos no manejo da dor.

A abertura da enquete pode ampliar o acesso a tratamentos assertivos, diminuir o índice de pacientes que sofrem com dor e ampliar a discussão sobre o problema. Também é fundamental que cada paciente possa estimular seu médico a engajar-se por mudar o cenário, por meio de associações médicas, eventos de classe e participação em consultas públicas.

As contribuições para a enquete podem ser feitas até 11 de março, por meio do site da Conitec.

Irimar de Paula Posso é Pres. da Soc. Bras. para o Estudo da Dor

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