Wadih Damous: A democracia e o ensaio sobre a lucidez

A democracia contemporânea é frágil porque foi sequestrada, condicionada e amputada pelo capital

Por O Dia

Rio - O que aconteceria se num dia qualquer grande parte da população decidisse votar em branco para questionar o sistema político brasileiro? É a forma que José Saramago encontrou para construir a trama do livro que usei de título para questionar a democracia contemporânea.

A crítica do escritor português à democracia vem bem a calhar ao atual período político brasileiro. Cai como uma luva para explicar o atual momento em que um grupo de golpistas irresponsáveis, sem nenhuma expressão política, estimulado pela grande mídia e pela patética ação de um dirigente empresarial, ilegalmente tenta apagar da memória os 54,5 milhões de votos obtidos pela presidente Dilma Rousseff nas últimas eleições.

A democracia contemporânea é frágil porque foi sequestrada, condicionada e amputada pelo capital. Mas ainda assim é um valor civilizatório pelo qual pagamos com a vida de brasileiros do porte de Vladimir Herzog, Rubens Paiva e Iara Iavelberg, para ficar apenas em alguns. Além de valor, a democracia brasileira é uma conquista e, como tal, exige defesa intransigente.

É por este motivo, por ver a tentativa de sequestro da democracia por políticos do porte de Temer, Cunha e Skaf é que a sociedade brasileira se levantou. Artistas, intelectuais, movimentos sociais e partidos políticos, que são até mesmo críticos do próprio governo Dilma, têm organizado atos espontâneos por todo o país em defesa da democracia e contra o golpe.

Ledo engano imaginar que fosse possível, através de um levante parlamentar, destruir os pilares da democracia brasileira e atacar o voto, maior patrimônio da cidadania.

A desonra que Michel Temer e Eduardo Cunha praticam dia a dia contra a memória de Ulysses Guimarães faz lembrar os tétricos personagens do livro de Saramago que, por não aceitar a vontade das urnas, lançaram mãos das mais vis iniciativas para amedrontar a população e fazer com que votassem da forma como queriam que votassem.

E é lembrando Chico Buarque, esse grande brasileiro, que encerro com um recado para o trio Temer, Cunha e Skaf. Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia.

?Wadih Damous é deputado federal pelo PT 

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