Luana Muniz, a 'rainha da Lapa', é enterrada

Travesti, famosa por manter casarão de acolhimento no bairro, morreu na madrugada de sábado

Por O Dia

Rio - Na coroa de flores, a mesma frase que está grafitada na porta do casarão da Mem de Sá, 100, onde Luana Muniz acolhia a população LGBT vulnerável: “Tá pensando que travesti é bagunça?”. O corpo da autodenominada ‘rainha da Lapa’, morta na madrugada de sábado após uma pneumonia bilateral, foi enterrado neste domingo no Cemitério de Irajá.

Luana tinha 59 anos de vida, 47 de prostituição e 38 de vida artística. Já conheceu o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, participou de um filme com a atriz Dira Paes e percorreu 39 países. Há apenas duas semanas, ainda estava na ativa, fazendo um show com as amigas Lorna Washington, Paulete Godard e Danny D’Avalon.

Os amigos Divina Aloma%2C Marcia Fonseca e Claudio Couber%2C no enterro da travesti Luana MunizCléber Mendes / Agência O DIa

A fotógrafa Ana Carolina Fernandes, de 48 anos, registrou a última apresentação da Rainha da Lapa, em um bar em Cascadura. Ela conviveu por dois anos com a travesti para registrar o cotidiano de seu casarão em uma exposição que percorreu Rio e São Paulo. “Eu disse para ela: Luana, você está tão linda! Não imaginava que isso iria acontecer tão de repente”, disse.

Amigo de infância de Luana, o bancário Cláudio Salcides, de 53 anos, lembrou como os dois se descobriram ‘diferentes’ dos amigos de Vista Alegre e juntos ‘foram para o mundo’. Com 9 anos, a travesti saiu de casa. “Descobrimos juntos nossa orientação. Acompanhei a transformação de menino para Luana. Lembro do primeiro vestido, a primeira peruca”, disse.

Sharlene Rosa e Tito Gomes. 'Luana protegia e tomava conta de todos', disse eleCléber Mendes / Agência O DIa

Agora, o psicólogo Tito Gomes, de 59 anos, amigo da travesti há mais de 20, teme o vácuo que a falta de Luana pode causar às travestis, transexuais e portadores de HIV acolhidos por ela. A posse do casarão já começou a ser disputada após a morte de sua dona. “Ela acalmava, mas também batia quando era necessário. A Luana protegia e tomava conta de todos”, contou.

No entanto, Cláudio Nascimento, ex-coordenador do programa Rio sem Homofobia, garante que o movimento LGBT e trans está atento às necessidades das travestis da Lapa. “Até em homenagem a ela, é preciso continuar nossa luta. Vamos trabalhar todos juntos, se articular para garantir que as pessoas trans não sofram violência na ausência dela”, disse.

A memória de Luana deve continuar a ser lembrada ao longo deste ano no documentário ‘Luana’, de Ana Terra Athayde, e em um livro escrito por Anja Kessler.

Reportagem da estagiária Alessandra Monnerat

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