Por douglas.nunes

Pelo andar da carruagem, o Banco Central não terá motivo para voltar a elevar as taxas de juros na reunião marcada para o próximo dia 28 de maio. Demorou, mas a economia começa a sentir o efeito do remédio amargo aplicado pelo Comitê de Política Monetária, o Copom. A inflação resistiu por quase doze meses, período em que a taxa Selic saltou de 7% para 11% ao ano. Mas mostra sinais de recuo. Em suas atas, o BC previa que a política monetária só daria resultados concretos a partir de junho, talvez julho. E explicava que funciona assim mesmo: há uma defasagem de no minimo seis meses entre a dosagem dos juros e a reação do paciente, no caso a taxa de inflação. Como advertia Mário Henrique Simonsen, nesse meio tempo, é preciso tomar cuidado para não matar o paciente.

A economia, obviamente, já está pagando o preço dos juros recordes. O que, para o Banco Central, não é surpresa. Era exatamente esse seu objetivo ao iniciar a escalada da Selic. As etapas foram cumpridas por votação unânime dos membros do Copom, cuja prioridade absoluta é o combate à inflação. Se o efeito não veio mais rápido, foi em razão do impacto da estiagem nos preços dos alimentos. Mas o pior momento parece ter passado. O IGP-10 de maio, que mede os preços por atacado, subiu apenas 0,13%, contra 1,19% de abril. Na análise do Departamento Econômico do Bradesco, houve desaceleração “em especial dos produtos agrícolas”. O IPA agrícola despencou da alta de 0,42% em abril para 0,42% em maio. E mais impressionante ainda foi o comportamento dos produtos in natura: haviam subido 15,79% em abril, e agora ficaram em civilizados 1,18%.

É uma excelente notícia para o governo, mas vale lembrar que outros fatores ajudam a engordar a inflação, como, por exemplo, as tarifas públicas e os preços administrados. O país acaba de assistir a um exótico debate entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, a respeito do represamento de preços. Mercadante, em entrevista à Folha, afirmou que é natural adiar alguns reajustes para não jogar lenha na fogueira da inflação. Mantega discordou do colega e garantiu, durante audiência na Câmara, que os preços de energia elétrica e combustíveis não estão sendo represados. Citou o reajuste de 18% nas tarifas de energia elétrica e disse também que os combustíveis sofreram aumento este ano. Estão alinhados ao mercado internacional, mas não podem ficar ao sabor das oscilações do câmbio. “Não é recomendável que se faça um reajuste tempestivamente”, explicou Mantega.

Discussões à parte, tudo indica que a inflação está, de fato, perdendo o ímpeto. O que já é reconhecido pelos agentes do mercado financeiro na pesquisa Focus, divulgada toda semana pelo Banco Central. Não custa ressaltar, porém, que a inflação cede na proporção exata do esfriamento da demanda, provocado pela alta dos juros. Ontem mesmo, o IBGE anunciou que as vendas do comércio em março caíram 0,5% em relação ao mês anterior. É a maior queda desde maio de 2012. A venda de automóveis também teve o pior desempenho desde 2008, com uma queda de 16% em relação a março do ano passado. Justifica-se parte desta perda com o Carnaval e a redução do crédito. Mas o certo é que a economia perdeu o fôlego. Esse é o lado perverso do êxito da política monetária. Como ensinou Milton Friedman, não há almoço grátis.

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