Agricultura sem sombra nem água fresca no Brasil

Aquecimento global terá impacto negativo em várias culturas. Qualidade do pasto pode cair, prejudicando produção de carne

Por O Dia

Rio - Se o processo de elevação das temperaturas do planeta não for revertido a médio prazo, pode ‘dar a louca’ no agronegócio brasileiro. O alerta é do estudo ‘Aquecimento Global e a Nova Geografia da Produção Agrícola no Brasil’, apresentado em conferência na Irlanda semana passada.

>> INFOGRÁFICO: O efeito estufa sobre as plantações

A pesquisa foi conduzida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entre as culturas que poderão sofrer quedas estão as de feijão, arroz, trigo, milho e soja. Já as pastagens se beneficiariam com temperaturas mais altas. Mas não necessariamente este potencial para mais quantidade de pasto é uma boa notícia.

Temperaturas mais altas propiciam mais pastos%2C porém com menos nutrientesDivulgação

Uma piora na qualidade desta pastagem é apontada nos resultados de estudo que faz parte do projeto Climapest, da Embrapa. Com base na quantidade presumível de gases do efeito estufa na atmosfera daqui a 30 anos, pesquisadores da Usp criaram um ambiente com alto teor dessas substâncias. E constataram que a gramínea brachiaria, mais utilizada na alimentação do gado no país, realmente cresce com mais força — porém com mais componentes ruins para a digestão e menos nutrientes. Isso pode afetar a produção de carne bovina, um dos principais itens exportados pelo Brasil.

“Os resultados nos mostram que o país está vulnerável. Os estresses climáticos promovidos pelo aquecimento global ameaçam as culturas alimentares, e elas devem enfrentar nos próximos anos uma situação desvantajosa, de perda de área favorável e prejuízo”, disse Eduardo Delgado Assad, pesquisador da Embrapa, ao Ecodebate. Uma das poucas culturas que se adaptaria bem ao aquecimento seria a de cana-de-açúcar. Pelo menos a produção de etanol agradece.

Perda de grandes áreas de plantio

Regiões hoje tradicionalmente agrícolas podem se tornar no futuro inadequadas. “A tendência é que a área de seca desça até o oeste da Bahia, o sul do Piauí e o Maranhão, atingindo regiões que hoje têm uma agricultura belíssima. Os problemas já podem aparecer em 2020”, diz Hilton Silveira Pinto, da Unicamp. Os estudiosos afirmam que novas tecnologias podem evitar os problemas, absorvendo gases do efeito estufa. Outra opção é adaptar culturas geograficamente. “Por exemplo, levar o café mais para o sul, ver se as culturas se dão bem em outros lugares”, afirma Assad.

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