Rio em uma fria

Climatologistas explicam baixas temperaturas na cidade, em plena Primavera. Para alguns, fenômeno reforçaria tese de resfriamento no lugar do aquecimento global

Por O Dia

Rio - As baixas temperaturas sentidas por cariocas esta semana, que variaram com mínimas de 16º C e 15º C na orla, dando força a frio atípico que se prolonga em plena Primavera, mostram que há algum tempo a cidade deixa de merecer o título da canção de Fernanda Abreu, ‘Rio 40 Graus’. A percepção é que, com a frequência maior das chegadas de frentes frias, cada vez mais vão se reduzindo os meses de calor intenso, de sol e praia. Não só o Rio. Esta semana, o choque de onda de frio fora de época fez nevar em Santa Catarina, provocou ciclone extratropical no Rio Grande do Sul e um tornado em São Paulo.

Os fenômenos nos estados do Sul e Sudeste dão gás a especialistas ouvidos pelo DIA que contestam a tese de aquecimento global, na contramão do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado na sexta-feira. Estudo da ONU prevê elevação de 4,8º C na temperatura em todo o planeta. Mas pelo menos dois dos especialistas apostam em longo período de resfriamento global.

Relógios da orla do Rio registraram temperaturas de até 15º C na primeira semana da PrimaveraSeverino Silva / Agência O Dia

O climatologista Ricardo Augusto Felício, professor da USP, é da corrente de estudiosas que detonam a tese de esquentamento da Terra. “Não há o que discutir. É comprovado pelo próprio IPCC que desde 1998 a temperatura está caindo”, destacou.

O climatologista também descarta o efeito estufa (processo natural de retenção do calor na atmosfera) como agente capaz de elevar a temperatura a níveis alarmantes. “A mudança de temperatura é efeito natural da variabilidade climática. Podemos passar por invernos mais quentes ou mais frios, mas é perceptível que as temperaturas mais baixas estão atingindo o Brasil”, garante Ricardo Augusto.

Para ele, a queda na temperatura no Rio, São Paulo e estados do Sul se deve ao ciclo solar, que passa por um período de baixa intensidade. “A previsão é que continue assim até 2030”, ressaltou Felício.

Ele explica que os fenômenos meteorológicos estão atuando em uma amplitude maior pelas latitudes do planeta, atingindo principalmente o Brasil e a Costa Leste americana. “Aí o frio toma conta, não tem jeito”, conclui.

Defensor do aquecimento e um dos autores do relatório do IPCC, o climatologista e também professor da USP Tércio Ambrizzi dá outra explicação para o frio fora de hora no Rio e no Sul. “São eventos isolados e nem sempre podem ser associados às mudanças do clima”, ressalta.

Frio atípico muda hábito de carioca

Durante toda a primeira semana desta Primavera, as temperaturas máximas no Rio não passaram dos 17 graus. O frio atípico já muda hábitos de cariocas, como a aposentada Maria Áurea Rosa, 73 anos, que desistiu das caminhas diárias. “Acordo muito cedo e tenho o hábito de fazer uma caminhada. Ando pouco mais de um quilômetro. Nestes dias, não consegui, nem mesmo de casaco. Ventava muito. Um vento gélido”.

Ciclones, enchentes e políticas públicas para combatê-los

Ricardo Augusto rechaça a ideia de que enchentes que, ano a ano, atingem Santa Catarina, tenham qualquer influência do aquecimento. Para o climatologista, ciclones geram precipitações, sobrecarregando as bacias hidrográficas. Os ventos de leste para oeste, então, pressionam as ondas do mar contra a costa, dificultando o escoamento. “A água fica acumulada por conta das chuvas e do efeito tampão da maré”, resumiu.

Ele critica as políticas públicas, baseadas na propaganda do aquecimento global, para reverter as consequências das mudanças climáticas. “Vejo como um desperdício de recursos humanos e financeiros que poderiam estar sendo empregados em problemas reais”, disparou o professor da USP, defendendo apenas investimentos para a redução de impactos causados por fenômenos naturais, como vendavais acompanhados de fortes chuvas.

Para a coordenadora da Câmara de Mudança do Clima do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, Raquel Souza, que acredita na reversão do quadro de aquecimento, pouco tem sido investido neste sentido. “Essas questões ainda não fazem parte da agenda do governo, mas isso está mudando. É preciso acelerar o ritmo para diminuir o impacto no nosso dia a dia”, destacou.

A pesquisadora Martha Barata, do Instituto Oswaldo Cruz, que estudou os riscos das mudanças climáticas no Rio, vê a questão de forma similar. “Estamos atrasadíssimos com o dever de casa, mas algumas cidades estão empenhadas. Se todos os setores se preocuparem, há tempo para reverter as consequências”, alertou.

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