Por O Dia

Rio - O relógio marcava 23h do dia 30 de março de 1964 quando João Goulart cruzou, com semblante tenso, o salão do Au­tomóvel Club do Brasil, na Rua do Passeio, Centro do Rio. Chovia forte quando ele deixou o local e tomou a direção da Cinelândia. Àquela altura, provavelmente ele já sabia que o discurso feito momentos antes na reunião dos sargentos havia sido seu último como presidente do Brasil. Mas a verdadeira tempestade ainda es­tava por chegar. O DIA conversou com duas testemunhas daqueles momentos, dois sargentos simpa­tizantes de Jango, que garantem: se o presidente quisesse resistir ao golpe, os suboficiais pegariam em armas. “Não é questão de dizer se ia ou não ter sangue. A ditadura matou centenas: isso é sangue”, diz o hoje capitão reformado Amadeu Felipe Ferreira, 78 anos.

Amadeu era da ala esquerda do Exército e não concordava com a realização do encontro: defendeu a permanência dos janguistas nos quartéis pois, segundo ele, o gol­pe já estava em curso. “Quem sabe primeiro das coisas é o sargento. Bastava Jango pedir que pegaria­mos em armas”, garante. Mesmo contrariado, Amadeu saiu de Re­alengo, onde vivia com a família, e foi ao encontro, organizado pela Associação dos Sargentos e Subo­ficiais da Polícia Militar. O evento começou às 19h30. “Jango falou das reformas e agradeceu o apoio dos sargentos. Depois, saiu depres­sa. Sabia que as tropas estavam na rua para dar o golpe”, relembra.

A presença de Jango ao lado da baixa oficialidade das Forças Armadas, há exatos 50 anos, foi o último capítulo de uma relação tensa desde 1961, quando ele, do PTB, assumiu o governo após a re­núncia de Jânio Quadros, do PTN. Ali, os ministros militares se ma­nifestaram contra a posse do então vice-presidente, por conta de sua ligação com a esquerda. Em setem­bro de 1963, sargentos da Marinha e Aeronáutica se insurgiram em Brasília, por conta da negativa do STF às suas candidaturas – Jango manteve-se neutro.

A historiadora da UFF e da Unirio, Ângela de Castro Gomes, coautora de ‘1964’, livro lançado neste mês, diz que a presença do presidente no encontro foi a gota “que transbordou” o copo. “O epi­sódio selou a ruptura entre Jango e os militares. Ficou comprovado que o presidente não era garan­tia da hierarquia militar”, indica. Para ela, Jango sabia que sua ida ao encontro seria interpretada como provocação, por conta do contexto. “Claro que o golpe no dia seguinte tem vinculação com a reunião. Afinal, o chefe das For­ças Armadas mostrou descompro­misso com a hierarquia.”

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Se os rumos do país foram sa­cramentados naquela noite, a his­tória poderia ter sido outra caso dois destinos se cruzassem antes. No verão daquele ano, Amadeu e cinco sargentos saíram do Rio numa caminhonete, em direção a Petrópolis. O objetivo era alertar Jango, de férias na serra, sobre o golpe que estava por vir. “Não con­seguimos falar com ele. Sem di­nheiro, acabamos dormindo num trem antes de voltar”. Os sargentos estavam mobilizados para alertar os políticos sobre o “espírito na­zifascista” que tomava conta dos quartéis. Dias depois da frustração na serra, foram a JK para repetir o alerta. “Éramos 40 sargentos, de terno e gravata, em excursão a Copacabana. Dissemos ao JK que ele seria o maior prejudicado pelo golpe, já que queria ser candidato em 1965. Ele achou que era ‘coisa de sargento novo’”, lamenta.

A relação entre Jango e os “sar­gentos novos” é mais um indício do racha dentro da caserna. “Mui­tos estavam ao lado de Jango, tan­to que, consumado o golpe, vários foram presos e punidos”, argumen­ta Ângela. No discurso feito dia 30, o presidente exaltou as reformas de base, “que não podiam mais ser adiadas”, mas não esqueceu de apoiar a baixa oficialidade. “Os sargentos jamais aceitarão ordens sem contestações, porque o cami­nho que lhes está traçado é o que me foi traçado também”, disse.

Para Amadeu, se Jango tivesse confiado nos sargentos, o destino seria outro. O presidente prefe­riu seguir o caminho que, como o próprio disse, “estava traçado”. Saiu do país dias após o golpe e só voltou para ser sepultado, em 1976. Já Amadeu foi preso e caiu nos porões da ditadura. “Estreei o que viria a ser o Doi-Codi (Des­tacamento de Operações de Infor­mações do Centro de Operações de Defesa Interna), na rua Barão de Mesquita.”

Ataque aos 'privilégios’

Ao se ler o discurso de Jango na reunião dos sargentos, não é difícil imaginar a razão para que ele tenha sido considerado como a gota da’água para deslanchar o golpe. O presidente, em discurso por rádio e TV, avisou aos golpistas que confiava no povo para a defesa de seu mandato, e dizia que o momento exigia calma dos brasileiros, “para fazer face ao clima de intrigas feitas por grupos poderosos.” Jango disse ainda que o financiamento das ações dos conspiradores vinha de fora do país. “Tantos recursos para campanha tão poderosa, para mobilização tão violenta contra o governo, eu diria simplesmente, sargentos brasileiros, que tudo isto vem do dinheiro dos profissionais da remessa ilícita de lucros”, afirmou. Antes de justificar a necessidade das Reformas de Base, o presidente que seria deposto defendeu-se dos que o acusavam de ser comunista. “Elas (as reformas) são, acima de tudo, reivindicações legítimas do povo brasileiro, indispensáveis ao desenvolvimento do nosso país.”

Na parte final do discurso, pareceu antever o golpe – e antecipar que não reagiria: “nesta noite, na hora em que se estão praticando as maiores indisciplinas, não admitirei que a desordem seja promovida em nome da ordem; não admitirei que o conflito entre irmãos seja pregado.”

Em 10 km, a História política do país

Num espaço de cerca de 10 km no coração do Rio se desenrolaram alguns dos principais e mais decisivos acontecimentos da História política recente do Brasil. Entre o campus da UFRJ na Praia Vermelha e a Central do Brasil, um presidente se suicidou no Catete (Getulio Vargas, em 1954), um político se entrincheirou, aguardando as tropas golpistas em Laranjeiras (Carlos Lacerda, governador da Guanabara em 1964), e, na altura do Aeroporto Santos Dumont, o estudante Edson Luís foi morto em 1968, desencadeando a reação que culminaria na decretação do Ato Institucional número 5.

Mesmo tendo deixado de ser Distrito Federal com a transferência da capital para Brasília em 1960, o Rio continuou sendo a cidade mais agitada do país. Tanto que Jango fez a defesa mais veemente de seu governo na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, e estava na Rua do Passeio quando as tropas golpistas começaram a marchar para tirá-lo do poder.

Da Cinelândia à Candelária caminharam 100 mil pessoas, em 1968, em protesto organizado pelo movimento estudantil contra a ditadura. Quatro anos antes, centenas de milhares de pessoas caminharam no sentido contrário, com intenção igualmente oposta: era a Marcha da Vitória, celebração pelo sucesso na deflagração do golpe e benção dos civis ao regime

Entrevista com Daltro Dornellas, Ex-sargento do Exército que defendia a resistência ao golpe

P. Qual a situação da caserna antes do dia 30?

R. Eram 5 % de esquerda, 5 % de direita e 90% em cima do muro. Fizeram besteira em Brasília, em 1963, e isso instru­mentalizou a direita. No ano seguinte, depois do episódio dos marinheiros, um companheiro me disse algo que jamais esqueci: ‘Agora radicalizaram a p... toda!’ Estávamos fazendo trabalho de base e ganhando a guerra de convencimento, ex­plicando a Reforma Agrária, a Lei de Remessa de Lucros.

2) Onde o senhor estava no dia da reunião do Clube dos Sargentos no Automóvel Club?

R: Naquele dia fiquei rodando as unidades, de metralhadora em punho. Não fui ao encontro porque queria juntar todos e ir ao Palácio Laranjeiras, de uniforme de passeio, para declarar apoio ao Jango, às reformas e ficar de prontidão. A reunião estava rolando quando aquelas tropas golpistas vagabundas vieram. Não daria para encarar a gente.

3) O que o senhor pensa do presidente João Goulart?

R: Ele estava coagido, mas foi débil. Foi triste ver os sargen­tos chorando, quando Jango resolveu que não iria resistir. Dizem que um sargento, preso após o golpe, se suicidou batendo com a cabeça na grade da cela, pois não entendia como nós não haviamos resistido. Ele (Jango) não tinha o direito de aceitar isso (o golpe). Uma resistência seria sufi­ciente para parar o golpe.

4) Os sargentos estavam preparados para resistir?

R: Primeiro, nós não queríamos dar golpe. As Forças Arma­das já estavam aguçadas desde o Comício da Central… Mas a gente podia virar aquele jogo. Os meus superiores diziam: o presidente não quer que faça, não quer derramamento de sangue. Pedimos apoio a um comandante, mas ele não veio. Sem comando, não tínhamos nada.

Fundador do Partido Militar Brasileiro defende voto direto

No período pré-golpe, uma das causas de insatisfação dos militares de baixa patente era o fato de não poderem votar ou serem votados. Atualmente, a Constituição garante os direitos políticos aos militares, mas impede a filiação partidária dos que estão em serviço.

Para o capitão Augusto Rosa, os militares “salvaram o Brasil de uma ditadura comunista”, e Jango quebrou a hierarquia quando encontrou os sargentos. “Hierarquia é a estrutura base do militarismo. Sem ela, só há o caos”, indica. Fundador do nanico Partido Militar Brasileiro, ainda em busca da legalização, ele critica a ação da Comissão da Verdade (“os crimes contra os militares não precisam ser apurados?”), discorda do termo ‘ditadura’ e prefere não falar sobre a repressão feita pelo Estado (“não compete a mim falar sobre isso). “Mas não queremos voltar a esse período, que foi de exceção. O PMB defende o voto direto”, garante.

Rosa também é a favor da redução da maioridade penal para 16 anos e transformação do crime de corrupção em hediondo. E, claro, contra a legalização da maconha, do aborto e o direito de voto de pessoas que recebam o Bolsa Família. “PT, PSDB, PMDB, são todos partidos de esquerda e se preocupam com marginais. Nós somos de direita e nosso alvo é o cidadão de bem”, resume.

Reportagem de Leandro Resende

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